Queria falar de Salvador através das minhas excursões em ônibus ( que são uma maravilha ) porque eu, por a minha condição de estrangeira, tenho de ir habitualmente para alguns lugares como à Receita Federal, que agora fica no aeroporto, e como o Consulado da Itália, em Aflitos, perto do Campo Grande.
Para ir à Receita Federal pego o ônibus "Aeroporto" que vai até Itapuã, passando pela Orla, que eu adoro, porque adoro o mar.
Na Itália eu moro numa ilha e perto da minha cidade tem oito quilómetros de praias, mas elas não pertecem à cidade, porém ficam ao lado.
Aqui é diferente, porque antes havia a natureza: o mar cheio de peixes, a mata atlántica, os animais da floresta.
Agora não sobra nada daquele mundo, só os nomes: Pituba ( o grande camarão ) Jaguaribe ( água dos jaguares ), lembranças de lugares salvagens, povoados pelos índios e pelos animais. Agora eu olho os aranhaceus de Pituba e as casas residenciais de Jaguaribe e penso que, embora ficando con medo, preferiria ver os jaguares.
O único bairro do qual eu gosto de verdade é o Rio Vermelho, muito interessante, porque se podem observar claramente os dois níveis da história da comunidade: a parte burgueza com os casarões decorados de ornamentos frorais, os jardins particulares e todo um aspecto que remonta ao início do século xx; e a parte popular, com as barcas e as rêdes dos pescadores.
Em cima de tudo, vigia a estatua de Yemanjá em forma de sereia, como para lembrar a todos que o povo do Rio Vermelho pertence ao mar.
Um caminho bem diferente que tenho de fazer várias vezes para ir à Casa da Itália é a rua 7 de Setembro, até Barris.
Pego o ônibus "Praça da Sé/Vitoria" que passa pela Oceânica e pela Ladeira da Barra.
O panorama da Oceânica, entre o Morro de Cristo (com seus coqueiros) e o Farol da Barra, é maravilhoso.
De manhã o de tarde sempre está cheio de gente: as praias de meninos brincando com as ondas ou treinando surf, a rua de pessoas que correm para emagrecer e ficar numa boa forma física.
A calçada entre o Farol e o Porto sempre está ocupadas pelos vendedores de objetos artesanais de todo tipo (joyas, instrumentos musicais, plumas de papagayo), camisas e vestidos, comida e bebida.
Depois o ônibus sobe pela Ladeira da Barra, passando em frente do Forte de S. António e do Yatch Club, e se pode curtir uma vista estupenda: o mar, a ilha de Itaparica, os barcos pintados de branco balançando sobre a superficie do mar.
Ao final da ladeira o ônibus entra no Corredor da Vitória, a minha rua preferida porque tem uma manga gigante, uma árvore única em Salvador: cresceu tanto que entrou no muro!
No Corredor da Vitória também ficam antigas vilas agora convertidas em museos ou em residências estudiantis, muitos prédios antigos e lindos, mas, sobretudo, árvores antigas e lindas.
Só tem uma coisa da qual eu não gosto muito: uma aparência rica e aristocrática que eu acho bastante antipatica.
Porém o final da viagem, pra mim, é muito mais alegre e simpático: a rua da Piedade com suas lojas baratas onde se pode encontrar tudo e os assistentes de venta que procuram convencerte de que você precisa de tudo.
Eu acho que descer do ônibus, entrar nas lojas, dar uma olhadina, falar com a gente que vende
é como fazer uma segunda viagem, tal vez mais interessante que a verdadeira.
Mas o meu relato não seria completo sem falar dos vendedores ambulantes nos ônibus.
Eu acho que pude perceber o significado autêntico do trabalho pesado vindo como eles agem e escutando as suas histórias.
Eles são incansaveis: sobem e descem sem parar um momento, sempre carregando a mercadoria que muitas vezes parece ser pesada.
Falam muito, entram em contacto com os passageiros, contam histórias pessoais, promocionando os seus produtos como se fossem produtos de grandes firmas, porém na verdade é mercadoria pobre.
É preciso ter muita criadividade e muita coragem para passar assím o dia todo e eu os admiro muito por isso.
As minhas excursões por Salvador terminan aqui.
Esperemos ter outra oportunidade para falar mais, tal vez sobre diferentes lugares de Salvador que ainda eu não conheço bem e que espero conhecer no futuro
Um beijo
Paola
Veja no mapa de onde vêm nossos leitores. Seja bem vindo(a)!
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Turistas em Salvador
Na passada semana aconteceu algo pra mim insólito: ver o comportamento de um turista em Salvador. Eu moro aqui há dois annos e acho que o meu olhar está compenetrado de baianidade, mas tive a oportunidade de experimentar o olhar turístico e eurocéntrico através o comportamento de uma amiga que veio a visitar-me e que acompanhei nas voltas que ela deu pela cidade.
Como primeira coisa eu pude perceber que todos os turistas são iguais, procurando os mesmos lugares e as mesmas experiências: as Praias, Pelourinho, as caipirinhas na Cantina da Lua e a capoeira da escola do Mestre Bimba e só gostam das excursões organizadas.
Por exemplo: têm muitos ônibus fazendo o trecho Salvador-Itapuã, com um custo de dois reais, mas o verdadeiro turista prefere pegar o ônibus turístico e pagar muito, muito mais.
Sempre ele fica encantado: "Que lindas praias! Que sol! Que paisagem!"
Não percebe que os ônibus urbanos viajam ao lado do seu e que a paisagem seria a mesma?
O verdadeiro turista não gosta de visitar muitas igrejas ou museos no Pelourinho, porque acha que são todos iguais, mas gosta muito de entrar e ficar horas nas lojas de souvenir que, todo mundo sabe, têm a única função de roubar, oferecendo a mesma mercadoria que oferecem os vendedores de rua ao dobro ou ao triplo do preço.
Mas os turistas gostam de ser roubados pelos lojistas e não pelos vendedores de rua: com os primeiros compram sem discutir, porém com os segundos se comprometem em debates que ném a cumbre mundial de G20
E pra que? Pra não gastar um punho de reais que quase não têm valor em euros.
A verdade é que não querem nem perceber a existência de problemas.
Quando a pobreza, representada pelos meninos do Pelô e pelos vendedores de colares, se aproxima a eles, reagem como quem dissesse:
"Por que você não segue sendo invisível? Não sabe você que os meus olhos só querem ver coisas bonitas?"
Não sei, espero não ser muito pessimista mas è mesmo a impressão que eu recebo muitas e muitas vezes.
Um saludo de esperança pra que as coisas e as pessoas melhorem
Paola
Como primeira coisa eu pude perceber que todos os turistas são iguais, procurando os mesmos lugares e as mesmas experiências: as Praias, Pelourinho, as caipirinhas na Cantina da Lua e a capoeira da escola do Mestre Bimba e só gostam das excursões organizadas.
Por exemplo: têm muitos ônibus fazendo o trecho Salvador-Itapuã, com um custo de dois reais, mas o verdadeiro turista prefere pegar o ônibus turístico e pagar muito, muito mais.
Sempre ele fica encantado: "Que lindas praias! Que sol! Que paisagem!"
Não percebe que os ônibus urbanos viajam ao lado do seu e que a paisagem seria a mesma?
O verdadeiro turista não gosta de visitar muitas igrejas ou museos no Pelourinho, porque acha que são todos iguais, mas gosta muito de entrar e ficar horas nas lojas de souvenir que, todo mundo sabe, têm a única função de roubar, oferecendo a mesma mercadoria que oferecem os vendedores de rua ao dobro ou ao triplo do preço.
Mas os turistas gostam de ser roubados pelos lojistas e não pelos vendedores de rua: com os primeiros compram sem discutir, porém com os segundos se comprometem em debates que ném a cumbre mundial de G20
E pra que? Pra não gastar um punho de reais que quase não têm valor em euros.
A verdade é que não querem nem perceber a existência de problemas.
Quando a pobreza, representada pelos meninos do Pelô e pelos vendedores de colares, se aproxima a eles, reagem como quem dissesse:
"Por que você não segue sendo invisível? Não sabe você que os meus olhos só querem ver coisas bonitas?"
Não sei, espero não ser muito pessimista mas è mesmo a impressão que eu recebo muitas e muitas vezes.
Um saludo de esperança pra que as coisas e as pessoas melhorem
Paola
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sábado, 15 de novembro de 2008
A cultura transplantada e a resposta à loucura pro Obama
O sábado antipassado fui ao jazz no MAM. Se não chover, é um evento que ocurre o ano enteiro no Museu de Arte Moderna (MAM) aqui em Salvador. Uma banda local toca música após do pôr o sol (18:30) até aproximadamente as 21 horas. Acho que posso dizer que é um dos meus lugares favoritos aqui; me lembra muito o verão em Madison com a música de sexta-feira acompanhado com o ambiente e o som das ondas chocando com as rochas e os barcos lá na frente, a cerveja gelada, a fofoca voando livremente na brisa. Tudo tranqüilo, tudo lindo, tudo erudito. Quanto mais desce o sol, mais as luzes artificiais das casas distantes aparecem como refleição dos imagens delas, como estrelas do céu caidas na terra. A vista realmente é lindo; é um lugar encantador. Mesmo não sendo muito fã da música jazz, adoro ir ao jazz no MAM. É o conjunto da música, a vista, o mar, e as pessoas que criam o espectáculo.
O sábado quando que fui ao jazz, mesmo o cenário sendo familiar, o jeito das pessoas ainda não era. Conheci um rapaz de trinta e tantos anos aquele noite e quando ele soube que eu era dos EUA començou falar em voz alta, quase gritando, que seu inglês não era muito bem e que morou um tempo no meu país, no Alabama. Logo ele começou a me explicar o racismo que ele experimentou lá. Só que o racismo que ele experimentou era porque o consideravam branco. Na sua visão, os EUA são um país racista porque apesar de ele ser baiano, lá era branco. Me falou que morando lá, ele ensinou em um colegio dominado pela presença negra mas se estranhou por o sotaque e o uso da giria muito forte dos negros, coisa que ele jamais conseguiu entender nem menos encontrar jeito de expressar. Me falou muitas coisas sobre o meu país que, na verdade, eu nunca tinha experimentado. Explicou que o povo lá era racista com ele porque ele era branco e aqueles negros não gostavam dos brancos. Que era um país segregado e quando ele tentou se integrar eles recusavam. Então, falou para eles apontando para seu braço meio moreno dizendo “Não! Não! Sou Baiano! Sou negro, gosto dos negros, sou um de vocês”. Ainda assim, eles se comportavam de um jeito racista segundo ele, excluindo ele por ser branco. Aqui é negro, lá é branco e quem sabe o que aconteceria na Europa ou na Ásia ou na África. Então raça é uma questão da preferência e definição pessoal? Não pode ser tão livre porque tem limites sociais que permitem certas pessoas se classificarem como negro e outras não. Então, onde fica essa linha? O que é necessário para se classificar como uma raça ou outra? Claro, o aspeto teórico não elimina o preconceito nem os exemplos concretos e reais de discriminação baseada nas definições da raça aceitadas socialmente.
Os EUA são um país racista. A história e inumeráveis exemplos modernos podem comprovar isso. Mesmo assim o tempo todo aqui em Salvador ouço palabvras e discursos tão racistas que não sei da onde vem esse concepto de que o Brasil não tem preconceito. Ainda não tive a oportunidade de viajar muito pelo país, porém, depende do ambiente mas mesmo aqui as pessoas me confirmam que o Brasil é um paraíso racial e que só existe a livre mistura de raça e isso concorda com a imagem exportado do Brasil também. Aqui na Bahia talvez as coisas são um pouco diferentes e a questão racial chegou alcançar a um nível acadêmico tanto que em Salvador tem uma parte da UFBA dedicada somente aos estudos disso (CEAO, centro de estudos afro-orientais), coisa que pelo momento acho absolutamente necessário para visibilizar o tema.
Com o olhar sempre voltado para fora (os EUA e Europa e as vezes só o sul do país), as pessoas daqui ficam falando, discutindo, até apaixonando de um discurso e por uma esperanza que talvez não lhes é própia de uma forma direita pelo menos. Fui para o Rio de Janeiro faz duas semanas e teve um rapaz lá que fez uma escultura na areia deletrando Barack Obama e saiu em cinco jornais o próximo dia. Quando fui ao Pelourinho o dia da eleição, entre todas as pinturas coloridas típicas da Bahia, vi um retrato de Obama. No Porto da Barra, vi um rapaz com uma camisa rosa com a foto de Obama em frente e o arcoiris atras. Por cada lado que viro a minha cabeça têm arte e manifestação por o apoio a Obama. Todo isso antes das eleições para empurrar essa energia boa na atmosfera e fazer que ele ganhasse (agora ganhou, suponho que funcionou).
Nos dias posteriores das eleições presidenciais dos EUA, os jornais baianos estavam lotados de artigos, comentários, e demias sobre o novo presidente-eleito Barack Obama. Em particular, gostei de um que saiu no jornal A Tarde, entitulado assim: “Barack Obama – o sonho da Bahia” por João Jorge Rodrigues (http://www.atarde.com.br/jornalatarde/opiniao/noticia.jsf?id=1003813). Nesse artigo não muito cumprido, um jornalista baiano comentou sobre a reação e esperança do povo brasileiro enquanto às noticias dos EUA terem eleito um presidente negro como o novo poder. Abriu o artigo dizendo: “A eleição americano foi capaz de revelar um fenômeno social modderno” e seguiu desse jeito até usar uma palavra que acho muito adequado aqui Obamania. Realmente as pessoas ficaram loucas por saber que os americanos eram capaceis de escolher um homem negro como presidente e até ficaram sorprendidas quando vieram a reação positiva e emotiva de muitas pessoas brancas, asiaticas, latinas retratados na tevê chorando com emoção por saber que Obama ia lhes representar pelo menos por os próximos quatro anos. Diz o artigo que com a eleição de Obama “nos inspira a lutar mais para realizar o sonho dos meninos e meninas negros esquecidos na periferia da cidade-mãe do Brasil”. Tudo transplantado, tudo olhar da fora analizando o Brasil, dizendo o que deve fazer e que deve arreglar, fazendo modelo para o país seguir, até o racismo nesse país. Na minha aula de Historia Cultura Brasileira, falamos o semestre enteiro da cultura transplantada da Europa antigamente e agora mais com os EUA e como as vezes (muitas vezes) não deu (da) certo aqui mesmo por serem transplantados numa sociedade que não sofreu a mesma historia da Europa. Antes nesse blog, analacei a cultura brasiliera de acordo com o olhar queer que aprendi nos EUA. Agora gostaria de escutar uma teoria de raça que vem daqui. Quero ouvir e ler textos produzidos pelas pessoas que são daqui para não seguir a vissão transplantada que tanto foi exposto o Brasil.
Por mais que gosto que as pessoas fiquem felizes por causa dos resultados electoriais do meu país (o que me faz sentir orgulhosa de pertencer à comunidade que fez possivel essa mudança) ainda é muito presente a idéia de transplantação da cultura. Quando vou ao jazz no MAM, me sinto transportada, transplantada ao mundo da fora, a minha casa. Mas o momento que eu pisar na rua lá acima, tiro o meu spray pimenta da minha bolsa e caminho a casa, olhando sempre atras de mim. O que quer dizer isso? Estou já cansada do meu discurso. Quero que uma pessoa baiana me diz.
O sábado quando que fui ao jazz, mesmo o cenário sendo familiar, o jeito das pessoas ainda não era. Conheci um rapaz de trinta e tantos anos aquele noite e quando ele soube que eu era dos EUA començou falar em voz alta, quase gritando, que seu inglês não era muito bem e que morou um tempo no meu país, no Alabama. Logo ele começou a me explicar o racismo que ele experimentou lá. Só que o racismo que ele experimentou era porque o consideravam branco. Na sua visão, os EUA são um país racista porque apesar de ele ser baiano, lá era branco. Me falou que morando lá, ele ensinou em um colegio dominado pela presença negra mas se estranhou por o sotaque e o uso da giria muito forte dos negros, coisa que ele jamais conseguiu entender nem menos encontrar jeito de expressar. Me falou muitas coisas sobre o meu país que, na verdade, eu nunca tinha experimentado. Explicou que o povo lá era racista com ele porque ele era branco e aqueles negros não gostavam dos brancos. Que era um país segregado e quando ele tentou se integrar eles recusavam. Então, falou para eles apontando para seu braço meio moreno dizendo “Não! Não! Sou Baiano! Sou negro, gosto dos negros, sou um de vocês”. Ainda assim, eles se comportavam de um jeito racista segundo ele, excluindo ele por ser branco. Aqui é negro, lá é branco e quem sabe o que aconteceria na Europa ou na Ásia ou na África. Então raça é uma questão da preferência e definição pessoal? Não pode ser tão livre porque tem limites sociais que permitem certas pessoas se classificarem como negro e outras não. Então, onde fica essa linha? O que é necessário para se classificar como uma raça ou outra? Claro, o aspeto teórico não elimina o preconceito nem os exemplos concretos e reais de discriminação baseada nas definições da raça aceitadas socialmente.
Os EUA são um país racista. A história e inumeráveis exemplos modernos podem comprovar isso. Mesmo assim o tempo todo aqui em Salvador ouço palabvras e discursos tão racistas que não sei da onde vem esse concepto de que o Brasil não tem preconceito. Ainda não tive a oportunidade de viajar muito pelo país, porém, depende do ambiente mas mesmo aqui as pessoas me confirmam que o Brasil é um paraíso racial e que só existe a livre mistura de raça e isso concorda com a imagem exportado do Brasil também. Aqui na Bahia talvez as coisas são um pouco diferentes e a questão racial chegou alcançar a um nível acadêmico tanto que em Salvador tem uma parte da UFBA dedicada somente aos estudos disso (CEAO, centro de estudos afro-orientais), coisa que pelo momento acho absolutamente necessário para visibilizar o tema.
Com o olhar sempre voltado para fora (os EUA e Europa e as vezes só o sul do país), as pessoas daqui ficam falando, discutindo, até apaixonando de um discurso e por uma esperanza que talvez não lhes é própia de uma forma direita pelo menos. Fui para o Rio de Janeiro faz duas semanas e teve um rapaz lá que fez uma escultura na areia deletrando Barack Obama e saiu em cinco jornais o próximo dia. Quando fui ao Pelourinho o dia da eleição, entre todas as pinturas coloridas típicas da Bahia, vi um retrato de Obama. No Porto da Barra, vi um rapaz com uma camisa rosa com a foto de Obama em frente e o arcoiris atras. Por cada lado que viro a minha cabeça têm arte e manifestação por o apoio a Obama. Todo isso antes das eleições para empurrar essa energia boa na atmosfera e fazer que ele ganhasse (agora ganhou, suponho que funcionou).
Nos dias posteriores das eleições presidenciais dos EUA, os jornais baianos estavam lotados de artigos, comentários, e demias sobre o novo presidente-eleito Barack Obama. Em particular, gostei de um que saiu no jornal A Tarde, entitulado assim: “Barack Obama – o sonho da Bahia” por João Jorge Rodrigues (http://www.atarde.com.br/jornalatarde/opiniao/noticia.jsf?id=1003813). Nesse artigo não muito cumprido, um jornalista baiano comentou sobre a reação e esperança do povo brasileiro enquanto às noticias dos EUA terem eleito um presidente negro como o novo poder. Abriu o artigo dizendo: “A eleição americano foi capaz de revelar um fenômeno social modderno” e seguiu desse jeito até usar uma palavra que acho muito adequado aqui Obamania. Realmente as pessoas ficaram loucas por saber que os americanos eram capaceis de escolher um homem negro como presidente e até ficaram sorprendidas quando vieram a reação positiva e emotiva de muitas pessoas brancas, asiaticas, latinas retratados na tevê chorando com emoção por saber que Obama ia lhes representar pelo menos por os próximos quatro anos. Diz o artigo que com a eleição de Obama “nos inspira a lutar mais para realizar o sonho dos meninos e meninas negros esquecidos na periferia da cidade-mãe do Brasil”. Tudo transplantado, tudo olhar da fora analizando o Brasil, dizendo o que deve fazer e que deve arreglar, fazendo modelo para o país seguir, até o racismo nesse país. Na minha aula de Historia Cultura Brasileira, falamos o semestre enteiro da cultura transplantada da Europa antigamente e agora mais com os EUA e como as vezes (muitas vezes) não deu (da) certo aqui mesmo por serem transplantados numa sociedade que não sofreu a mesma historia da Europa. Antes nesse blog, analacei a cultura brasiliera de acordo com o olhar queer que aprendi nos EUA. Agora gostaria de escutar uma teoria de raça que vem daqui. Quero ouvir e ler textos produzidos pelas pessoas que são daqui para não seguir a vissão transplantada que tanto foi exposto o Brasil.
Por mais que gosto que as pessoas fiquem felizes por causa dos resultados electoriais do meu país (o que me faz sentir orgulhosa de pertencer à comunidade que fez possivel essa mudança) ainda é muito presente a idéia de transplantação da cultura. Quando vou ao jazz no MAM, me sinto transportada, transplantada ao mundo da fora, a minha casa. Mas o momento que eu pisar na rua lá acima, tiro o meu spray pimenta da minha bolsa e caminho a casa, olhando sempre atras de mim. O que quer dizer isso? Estou já cansada do meu discurso. Quero que uma pessoa baiana me diz.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Um dia na praia...
Passando o fim de semana no Morro de São Paulo, eu me dei conta da economia turística lá e me lembrei que eu queria fazer alguns comentários sobre a economia da praia aqui em Salvador. Como eu sou de uma cidade (Filadélfia) que não tem praia, eu só conheço a praia americana de longe. Embora tivesse ido a praia em Nova Jersey não mais que cinco vezes na minha vida, eu sei que o espaço comercial lá e o Boardwalk, a calçada feita de madeira ao lado da areia, onde tem hotéis, restaurantes, lojas que vendem lembranças, a parque de diversão, e minha lugar preferida, a fliperama. Quando eu cheguei aqui em Salvador, eu fiquei fascinada com a diferença entre o comércio da praia brasileira e o das praias que eu conheci nos EUA.
Primeiro, sem o Boardwalk como espaço comercial, os vendedores levam todos os seus produtos nas costas pela areia e andam de um lado ao outro, tentando vender suas mercadorias. Eles geralmente reconhecem os gringos de longe e muitos sabem falar pelo menos o nome do seu produto em inglês. Quase todos os vendedores são simpáticos (quem quer perder clientes?) mas alguns também são tão agressivos até que você pode se convencer que está precisando de alguma coisa que nem poderia usar na praia.
Eles têm de tudo! Têm pulseiras tecidas, biquínis de coco, chapéus de folha de palmeira, brincos, colares de contas de vários tamanhos e cores, DVDs e CDs pirateados, redes de descanso, vestidos e muito mais. Têm coisas que você pode precisar na praia como protetor solar, bronzeador, creme para oxigenação do cabelo, óculos de sol, e cangas. Têm também coisas que eu nem podia imaginar encontrar na praia como tatuagens de henna, consultação de tarô, livros de segunda mão, quadros pintados, e manicures. As únicas coisas que você não pode vender na praia são a areia e o mar.
Pode ser velho ou ainda criança, tem vendedores de todo tipo, inclusive eu! Inspirada pela manicurista eu já fiz meu próprio trabalho lá, enrolando o cabelo rasta de um amigo meu, depois do qual eu ganhei o interesse de mais três clientes. Eu nunca imaginei abrir um salão de beleza, contudo na praia, até eu cheguei aqui.
Mas os vendedores de roupa e os artesanatos não são os únicos trabalhadores da praia, também tem os caras que aluguem cadeiras e sombreiros enquanto vendendo bebidas. Embora a prática de alugar cadeiras seja ilegal, como eu li nesse artigo, é muito comum, particularmente no Porto da Barra. Tem vários grupos (devem ser chamados empresas pequenas) competindo alugar espaço na areia e cada um tem seus clientes fiéis, que ficam na mesma parte da praia cada vez que visitam.
Além de tudo, os vendedores dos quais eu gosto mais são os que vendem merendas. Embora eu goste de merendar, eu prefiro eles mais por causa do seu jeito de chamar a atenção dos consumidores. Cada um tem um anúncio reconhecível. Por exemplo, o velho que vende picolé tem um assobio que você pode ouvir de longe. O cara que vende limonada sempre fala, “O limão chegou! Limonada!” Finalmente, ninguém pode esquecer dos vários gritos de "Queijo!!" ou da música dos vendedores de Camarão do João com sua repetição de camarão e João em várias frases. Não dá muito para relaxar na praia assim com tantas vendas, mas para mim, não é um problema porque eu gosto mais de socializar e observar as pessoas e suas interações.
Foi pelas minhas observações que eu descobri que ainda tinha outras pessoas trabalhando na praia sem parecer trabalhar. Tem guias turísticas fazendo amizades com gringos, oferecendo levá-los aos lugares bons da cidade. Tem prostitutas. Tem “caçadores” que vivem namorando gringas. Tem alguns capoeiristas que treinam e dão aula na praia e outros que dão saltos espectaculares para chamar a atenção dos gringos que podem levá-los fora do país para fazer apresentações. Tem pessoas que trabalham só pela conversa. Tem pessoas fazendo propaganda para boates e restaurantes, que convidam os turistas às festas. Tem outras que falam de apartamentos vazios ou que recomendam pousadas boas. Todo isso é trabalho que acontece na praia.
E no final do dia, depois de aplaudir o sol, você pode ver os pescadores. Pode ver pessoas que recolhem latas e garrafas, outras que colocam o lixo nas lixeiras, e outras que esvaziam as lixeiras. Tem varredores que tiram a areia da calçada à noite e outros que lavam as escadas de manha cedo. E daí tudo se repete de novo.
Primeiro, sem o Boardwalk como espaço comercial, os vendedores levam todos os seus produtos nas costas pela areia e andam de um lado ao outro, tentando vender suas mercadorias. Eles geralmente reconhecem os gringos de longe e muitos sabem falar pelo menos o nome do seu produto em inglês. Quase todos os vendedores são simpáticos (quem quer perder clientes?) mas alguns também são tão agressivos até que você pode se convencer que está precisando de alguma coisa que nem poderia usar na praia.
Eles têm de tudo! Têm pulseiras tecidas, biquínis de coco, chapéus de folha de palmeira, brincos, colares de contas de vários tamanhos e cores, DVDs e CDs pirateados, redes de descanso, vestidos e muito mais. Têm coisas que você pode precisar na praia como protetor solar, bronzeador, creme para oxigenação do cabelo, óculos de sol, e cangas. Têm também coisas que eu nem podia imaginar encontrar na praia como tatuagens de henna, consultação de tarô, livros de segunda mão, quadros pintados, e manicures. As únicas coisas que você não pode vender na praia são a areia e o mar.
Pode ser velho ou ainda criança, tem vendedores de todo tipo, inclusive eu! Inspirada pela manicurista eu já fiz meu próprio trabalho lá, enrolando o cabelo rasta de um amigo meu, depois do qual eu ganhei o interesse de mais três clientes. Eu nunca imaginei abrir um salão de beleza, contudo na praia, até eu cheguei aqui.
Mas os vendedores de roupa e os artesanatos não são os únicos trabalhadores da praia, também tem os caras que aluguem cadeiras e sombreiros enquanto vendendo bebidas. Embora a prática de alugar cadeiras seja ilegal, como eu li nesse artigo, é muito comum, particularmente no Porto da Barra. Tem vários grupos (devem ser chamados empresas pequenas) competindo alugar espaço na areia e cada um tem seus clientes fiéis, que ficam na mesma parte da praia cada vez que visitam.
Além de tudo, os vendedores dos quais eu gosto mais são os que vendem merendas. Embora eu goste de merendar, eu prefiro eles mais por causa do seu jeito de chamar a atenção dos consumidores. Cada um tem um anúncio reconhecível. Por exemplo, o velho que vende picolé tem um assobio que você pode ouvir de longe. O cara que vende limonada sempre fala, “O limão chegou! Limonada!” Finalmente, ninguém pode esquecer dos vários gritos de "Queijo!!" ou da música dos vendedores de Camarão do João com sua repetição de camarão e João em várias frases. Não dá muito para relaxar na praia assim com tantas vendas, mas para mim, não é um problema porque eu gosto mais de socializar e observar as pessoas e suas interações.
Foi pelas minhas observações que eu descobri que ainda tinha outras pessoas trabalhando na praia sem parecer trabalhar. Tem guias turísticas fazendo amizades com gringos, oferecendo levá-los aos lugares bons da cidade. Tem prostitutas. Tem “caçadores” que vivem namorando gringas. Tem alguns capoeiristas que treinam e dão aula na praia e outros que dão saltos espectaculares para chamar a atenção dos gringos que podem levá-los fora do país para fazer apresentações. Tem pessoas que trabalham só pela conversa. Tem pessoas fazendo propaganda para boates e restaurantes, que convidam os turistas às festas. Tem outras que falam de apartamentos vazios ou que recomendam pousadas boas. Todo isso é trabalho que acontece na praia.
E no final do dia, depois de aplaudir o sol, você pode ver os pescadores. Pode ver pessoas que recolhem latas e garrafas, outras que colocam o lixo nas lixeiras, e outras que esvaziam as lixeiras. Tem varredores que tiram a areia da calçada à noite e outros que lavam as escadas de manha cedo. E daí tudo se repete de novo.
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terça-feira, 11 de novembro de 2008
quem tem ... troca pra cinqüenta?
Viaje comigo por um momento. Imagine que estámos no meio do deserto num país estranho, sem água, sem comida. Só temos uma montanha de côcos ao nosso lado, mas faltamos uma facão para os abrir. Nem temos rochas. Estámos perdidos numa mar de areia, suando na sombra da nossa montanha de côcos e morrendo de sede. Há um pouco de trafico que passa, vendedores andando para a próxima cidade, uns carros com janelas escuras. Talvez um deles tenha uma faquinha? Mas como vamos perguntar? Eles falam uma língua diferente. Talvez a pessoa que pidamos vá robar nossos côcos e nos deixa numa condição pior da que comecamos.
As vezes, tenho a mesma sentimento aqui em Salvador. Terei dinheiro para gastar, mas faltarei a habilidade de o gastar. Como assim?, posso ouvir vocês pensando.
Simplesmente é o seguinte. Você sai da sua casa com cento e dois reais. Você gasta dois reais para pegar o ónibus para ir à faculdade. Suas aulas acabam, e você tem que voltar para casa. Você espere para o ónibus no ponto. Depois de uma meia-hora, você vê seu ónibus chegando. Joga uma mão, e o ónibus para. Até aqui, tudo está dando certo. Sobe as escadas, e você... você já devem saber o que vai acontecer. O rapaz vai dizer que ele não pode fazer troca para cem reais. O que você estava pensando, amigo? Você vai ter que desecer as escadas e pegar um taxí. Talvez ele tiver troca.
Talvez minha história seja um pouco fantástica, mas a verdade é que troca faz uma questão importante na vida de um estrangeiro em Salvador. O problem é que você não pode pagar para o ónibus com um cartão de crédito e que as máquinas de dinheiro nos bancos gostam de te dar cédulas enormes. Minha vida seria ótima se as máquinas banqueiras me desse cem reais em cédulas de dez reais. Cédulas de cinco seria melhor ainda.
As vezes, e particularmente no ónibus, tem que ter troca, mais ou menos, exata. Peguei um ónibus, voltando da Garibaldi pra Barra, que ao início, negou aceitar meu cédula de dez reais. Simplesmente, o rapaz da caixa não tinha troca. Que incrédulo, né? Convenci-lhe que ele pegasse troca antes que chegassémos no meu ponto, mas assisti, dúvida crescendo dentro do meu coração, como estudante depois de estudante com um cartão de mágico entrou no ónibus sem pagar. Houver uma mulher com dez reais no ponto depois que tentou entrar no ónibus também. Ela foi negada, e mandada para esperar e rezar que o próximo tivesse troca.
Desenvolvi umas estrategens para guardar minha troca e cédulas pequenas. Nas restaurantes, sempre uso a maior cédula que tenho. Eles sempre têm troca, e se não fazem pelos outros clientes. Num restaurante, alguém sempre tem. Quando uso as máquinas banqueiras, pido um número estratégico. R$222, R$188, R$334. (Nunca, nunca use números que são divisíble por R$100 e R$50!) Se você está comprando uma coisinha (seja chiclete ou uma maçã) num supermercado com $R50 e o caixa pergunta se você tem algo menor, a resposta é (senão caso de depressa) não. Talvez você tenha que esperar uma meia-hora e a fila atrás de você vá reclamar, mas sua troca aparecerá. Não desista!
É nos casos como no ónibus quando me sinto a maior saudades para a simpliciadade da vida nos EUA. Lá, saio de casa com meu cartão de crédito, sem pensar em troca ou cédulas. Posso pagar para tudo com ele. Nada é maior ou menor demais para ele. O hambuguer de McDonalds? US$0.96 no meu cartão. O novo vestido para o casamento da minha irmã? US$400 no meu cartão. Ô Visa, te adoro! (Mas acho que as vezes minha vida é mais semelhante às propagandas do Mastercard.)
até mais meus prezados leitores,
lisa
As vezes, tenho a mesma sentimento aqui em Salvador. Terei dinheiro para gastar, mas faltarei a habilidade de o gastar. Como assim?, posso ouvir vocês pensando.
Simplesmente é o seguinte. Você sai da sua casa com cento e dois reais. Você gasta dois reais para pegar o ónibus para ir à faculdade. Suas aulas acabam, e você tem que voltar para casa. Você espere para o ónibus no ponto. Depois de uma meia-hora, você vê seu ónibus chegando. Joga uma mão, e o ónibus para. Até aqui, tudo está dando certo. Sobe as escadas, e você... você já devem saber o que vai acontecer. O rapaz vai dizer que ele não pode fazer troca para cem reais. O que você estava pensando, amigo? Você vai ter que desecer as escadas e pegar um taxí. Talvez ele tiver troca.
Talvez minha história seja um pouco fantástica, mas a verdade é que troca faz uma questão importante na vida de um estrangeiro em Salvador. O problem é que você não pode pagar para o ónibus com um cartão de crédito e que as máquinas de dinheiro nos bancos gostam de te dar cédulas enormes. Minha vida seria ótima se as máquinas banqueiras me desse cem reais em cédulas de dez reais. Cédulas de cinco seria melhor ainda.
As vezes, e particularmente no ónibus, tem que ter troca, mais ou menos, exata. Peguei um ónibus, voltando da Garibaldi pra Barra, que ao início, negou aceitar meu cédula de dez reais. Simplesmente, o rapaz da caixa não tinha troca. Que incrédulo, né? Convenci-lhe que ele pegasse troca antes que chegassémos no meu ponto, mas assisti, dúvida crescendo dentro do meu coração, como estudante depois de estudante com um cartão de mágico entrou no ónibus sem pagar. Houver uma mulher com dez reais no ponto depois que tentou entrar no ónibus também. Ela foi negada, e mandada para esperar e rezar que o próximo tivesse troca.
Desenvolvi umas estrategens para guardar minha troca e cédulas pequenas. Nas restaurantes, sempre uso a maior cédula que tenho. Eles sempre têm troca, e se não fazem pelos outros clientes. Num restaurante, alguém sempre tem. Quando uso as máquinas banqueiras, pido um número estratégico. R$222, R$188, R$334. (Nunca, nunca use números que são divisíble por R$100 e R$50!) Se você está comprando uma coisinha (seja chiclete ou uma maçã) num supermercado com $R50 e o caixa pergunta se você tem algo menor, a resposta é (senão caso de depressa) não. Talvez você tenha que esperar uma meia-hora e a fila atrás de você vá reclamar, mas sua troca aparecerá. Não desista!
É nos casos como no ónibus quando me sinto a maior saudades para a simpliciadade da vida nos EUA. Lá, saio de casa com meu cartão de crédito, sem pensar em troca ou cédulas. Posso pagar para tudo com ele. Nada é maior ou menor demais para ele. O hambuguer de McDonalds? US$0.96 no meu cartão. O novo vestido para o casamento da minha irmã? US$400 no meu cartão. Ô Visa, te adoro! (Mas acho que as vezes minha vida é mais semelhante às propagandas do Mastercard.)
até mais meus prezados leitores,
lisa
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008
O desdén de ser politicamente correto
Poderia recorrer de novo todo o que já tinha escrito sobre categorias e como desde criança a gente aprendeu de acordo delas. Agora, tanto faz se você estiver disposto a viver ou não de acordo com essas categorias. O ponto é que existem e a gente mora dentro da sociedade que funciona assim. Então, tudo bem...até chegar às "categorias" das pessoas. Ao mesmo tempo de que a gente foi criada para reconhecer certas categorias e padrões normalizados na sociedade, não é aceito dizé-as com referência às pessoas, pelo menos não nos EUA (refleitado um pouco na postagem anterior de Lisa sobre peso). Era impregnado em nós, com pouca sutileza, não categorizar certas "coisas", o seja, tipificar as pessoas. Fazer isso é considerada má educada e no caso (talvez só americana) discriminatória. Tudo isso até chegar à palavra terrivel que nenhuma sociedade quer admitir que exista nela; implica a categorização com base na cor: o racismo. Então, categoirzar é mais do que aceitado, é reenforçado socialmente só que não é aceito em certas circunstâncias. Enquanto na escola e fora fomos socializados para reconhecer e viver de acordo com categorias hierarquizada da raça e de gênero entre outros, não era "educado” categorizar e generalizar "tipos" de pessoas com base na raça nem na etnia, pelo menos não em voz alta. Eu nasci no meio da década dos anos oitenta quando a televisão americana começava ter personagens e clamor da falta de personagiens principais "negros" ou "latinos". Com certeza essa mentalidade de luta influiu em minha formação e a de todas as pessoas de minha geração.
Talvez isso faça sentido no contexto de um país com uma história tão forte de imigração como os EUA, mais existem outros países na América mesmo (a Argentina, o Brasil por exemplo) que partilham dessa história em comum. Então, qual é a diferença? É que as pessoas dos EUA ficam com medo de ofender as pessoas e é só uma maneira de esconder o racismo inerente nas pessoas ou realmente é válido? Já ouvi falar muito aqui com um tom desdénhado quase chegando à raiva por causa das pessoas ficarem com esse "medo" de falar "a verdade". Elas se defendem dizendo que são honestas e direitas e é uma característica “inerente” à identidade nacional brasileira. Mas, não sei se acredito nisso. Todo lugar que tenho visitado tem esse mesmo desdén pela atitude "americana" de sensibilizar e esconder o que segundo os demais, a gente sabe e está pensando só que não dizendo. Muitas vezes escuto comentários de pessoas na área de "ai ai, mais dizer isso é politicamente correto" acompanhado com o movimento suspeito dos olhos e o nariz feito em arrugas. Praticamente é a pior coisa que alguém pode fazer: dizer ou produzir algo que é considerado politicamente correto. Sempre voltando ao contexto histórico, talvez possa fazer sentido o porquê da mentalidade politicamente correta do povo americano. Mas só entender a base histórica de porque surgiu não significa que a gente tem que aceitar essa ideologia nem viver de acordo com ela. Não é? Mas, realmente será que é uma diferença de opinião só? Uma simples perspectiva ou olhar distinto? Ou será que estou sofrendo do que chamam de "choque cultural" agora, quatro meses depois de ter chegado ao Brasil? Uma amiga me falou que devia ser uma questão da adaptação cultural assim. Deve ser uma diferença desse tipo mas não sei se acredito nisso. Já tenho escutado e visto muitas coisas aqui que me deixam tão surprendidas e ofendidas. Por exemplo, vi uma cartaz anunciando a novela “negócio da china” com todos os personagens (oito pessoas pelo menos) brasileiros fazendo “olhos chineses”, o seja, com os dedos dos mãos estirando os olhos para que ficarem mais finos e menos redondos. Ou cada vez que alguém me da uma descrição de uma pessoa, se tem uma mínima possibilidade que os demais lhe reconhecem como gay, é a primeira característica da pessoa dada: você sabe....ele é alto, loiro, aaa ele é gay! Sabia? Como se com esse comentário fosse a única característica importante e marcante da pessoa. Ou, também, quando as pessoas me respondendo depois de eu contar que fui assaltada duas vezes: a sim, você tem que ter cuidado nesta cidade. Têm muitos negãos que te podem roubar. Como se tinha incluido o cor da pele das pessoas que me assaltaram como fator principal do evento. Sempre depois das pessoas falarem assim, fico calada, com uma sorrisa falsa na minha cara, fixada numa transe sem palavra alguma para dizer. O que é que eles estão esperando de mim? Se é uma resposta verdadeira ou “honesta” que querem, acho que não vão gostar mais de mim. Mas estou aqui para aprender de uma outra cultura, então devo respeitar isso né?
Talvez isso faça sentido no contexto de um país com uma história tão forte de imigração como os EUA, mais existem outros países na América mesmo (a Argentina, o Brasil por exemplo) que partilham dessa história em comum. Então, qual é a diferença? É que as pessoas dos EUA ficam com medo de ofender as pessoas e é só uma maneira de esconder o racismo inerente nas pessoas ou realmente é válido? Já ouvi falar muito aqui com um tom desdénhado quase chegando à raiva por causa das pessoas ficarem com esse "medo" de falar "a verdade". Elas se defendem dizendo que são honestas e direitas e é uma característica “inerente” à identidade nacional brasileira. Mas, não sei se acredito nisso. Todo lugar que tenho visitado tem esse mesmo desdén pela atitude "americana" de sensibilizar e esconder o que segundo os demais, a gente sabe e está pensando só que não dizendo. Muitas vezes escuto comentários de pessoas na área de "ai ai, mais dizer isso é politicamente correto" acompanhado com o movimento suspeito dos olhos e o nariz feito em arrugas. Praticamente é a pior coisa que alguém pode fazer: dizer ou produzir algo que é considerado politicamente correto. Sempre voltando ao contexto histórico, talvez possa fazer sentido o porquê da mentalidade politicamente correta do povo americano. Mas só entender a base histórica de porque surgiu não significa que a gente tem que aceitar essa ideologia nem viver de acordo com ela. Não é? Mas, realmente será que é uma diferença de opinião só? Uma simples perspectiva ou olhar distinto? Ou será que estou sofrendo do que chamam de "choque cultural" agora, quatro meses depois de ter chegado ao Brasil? Uma amiga me falou que devia ser uma questão da adaptação cultural assim. Deve ser uma diferença desse tipo mas não sei se acredito nisso. Já tenho escutado e visto muitas coisas aqui que me deixam tão surprendidas e ofendidas. Por exemplo, vi uma cartaz anunciando a novela “negócio da china” com todos os personagens (oito pessoas pelo menos) brasileiros fazendo “olhos chineses”, o seja, com os dedos dos mãos estirando os olhos para que ficarem mais finos e menos redondos. Ou cada vez que alguém me da uma descrição de uma pessoa, se tem uma mínima possibilidade que os demais lhe reconhecem como gay, é a primeira característica da pessoa dada: você sabe....ele é alto, loiro, aaa ele é gay! Sabia? Como se com esse comentário fosse a única característica importante e marcante da pessoa. Ou, também, quando as pessoas me respondendo depois de eu contar que fui assaltada duas vezes: a sim, você tem que ter cuidado nesta cidade. Têm muitos negãos que te podem roubar. Como se tinha incluido o cor da pele das pessoas que me assaltaram como fator principal do evento. Sempre depois das pessoas falarem assim, fico calada, com uma sorrisa falsa na minha cara, fixada numa transe sem palavra alguma para dizer. O que é que eles estão esperando de mim? Se é uma resposta verdadeira ou “honesta” que querem, acho que não vão gostar mais de mim. Mas estou aqui para aprender de uma outra cultura, então devo respeitar isso né?
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terça-feira, 4 de novembro de 2008
Obama, O Cara

O dia chegou! Hoje milhões de americanos vão votar para o novo presidente dos EUA. Como eu já mandei meu voto (para Obama, claro) pelo correio e está quase garantido que ele vai ganhar, eu já estou pronta para fazer uma festa hoje a noite.
Antigamente eu pensava que seria melhor estar nos EUA para celebrar esse grande momento da história do país, mas como eu descobri recentemente, eu não vou brindar à vitoria de Obama sozinha. Há muitos brasileiros que estão torcendo para ele também, inclusive meu namorado, Alan, que o admira muito. O texto seguinte vem de uma entrevista que eu fiz com Alan ontem, na véspera da eleição.
Você viu os quadros de Obama no Shopping Barra e a propaganda dele na rua?
Eu vi. Vi a foto de Obama na rua em que eu passava. Eu vi Obama em vários lugares. Eu tenho uma camisa de Obama que ganhei como presente de meu amigo que mora nos EUA. E vesti porque ele é o cara. Quero que Obama faça tudo que Bush só estragou. Aqui no Brasil, tem muitas pessoas que amam ele. Todo mundo tá torcendo para ele. Cada passo que ele dá pra fazer palestra, a gente tá assistindo.
O que você pensa sobre Obama?
Eu sou uma pessoa brasileira. Sou negro, entendeu? E espero que Obama ganhe porque vai ser o primeiro negro ser presidente na história dos EUA. Tomara que ganhe porque vai ser bom para nós que têm pele negra e também vai ser bom para o país dos EUA que ele vai direitar tudo. Porque Bush só entrou pra fazer coisas que não era pra fazer. Bush tem uma mente de criança. E Obama, não. Ele vai ser o cara. Vai ser o homem dos EUA. E o outro, qual é o nome dele?
McCain.
McCain é somente um…Não sou racista, não. Eu sou eu, negro…Mas, McCain vai ser outro branco como Bush, que vai querer fazer guerra também como Bush fez…Por que a crise está agora nos EUA? Por causa de Bush porque ele não pensou antes como entrou na presidência. Se ele pensasse, não fazia nada disso.
O que é que você já ouviu falado sobre Obama na TV e no rádio?
Ouvi que ele tá na frente de McCain e que todo mundo tá torcendo pra ele. Nós brasileiros negros, a gente que trabalha nos lugares mais fracos do país—como garçom, como varredor da rua—a gente precisa superar mais. A gente tá rezando pra Obama ganhar porque, para nós, ele vai ser o exemplo da nossa vida como Nelson Mandela, que combateu a discriminação na África do Sul. A gente aqui tá esperando a oportunidade de ser alguém na vida, porque a gente ainda não tem toda nossa liberdade. Então, eu acho assim, não é só pra mim, que sou negro, mas para todas as pessoas que vivem no planeta, que têm pele negra, vai ser feliz que ele ganhar. Um presidente negro vai ver como as pessoas negras estão sofrendo. Porque agora não têm um presidente que vai lá e cuide das pessoas. Teve agora a situação em Nova Orleans—a Katarina—e Bush nem ligou direito para lá, que lá só tem pessoas negras.
Mas tem pessoas pobres e brancos também.
Eu vi na televisão. Eu sou assistador brasileiro e eu vi. Então fosse que Obama estivesse no lugar, como negro ele já tava direitando tudo lá.
Se Obama for eleito o que é que vai acontecer?
Eu espero que Obama seja um cara com carácter, que ajude as pessoas. Também tem que cumprir as coisas que ele falou antes da eleição. Tem que juntar o negro com o branco. Têm que ser a mesma coisa, que a gente é humano. A gente só tem uma pele só. Você tem uma orelha. Eu tenho um nariz…Mas eu espero que ele ganhe não só porque eu sou negro, é porque ele tem inteligência na cabeça. Vai ser a evolução do mundo. Obama vai ser o presidente que vai iluminar o mundo. Ele vai ser o melhor cara que vai ter. Bill Clinton é bom. George Bush é uma merda. Se ele fosse um presidente bom, não fazia as coisas que fez. Eu espero que Obama entre e tire a guerra do Iraque, e traga as tropas para os EUA porque lá é o país deles [os iraqis] não é o país dos EUA…Mas, Obama também pode ser um negro que não pode fazer nada. Posso falar e fazer nada. Não falei que Obama é o rei. Eu só espero que ele seja um cara que respeite todo mundo—branco, negro, azul, vermelho. Não importa a cor.
Essa é a primeira vez que os brasileiros torceram tanto para um presidente de fora?
Sim, é a primeira vez. É porque ele é negro. Não é racismo, não. É porque ele é o primeiro negro dos EUA...Eu quero que Obama ganhe pra tirar toda essa discriminação do Brasil. O branco correndo é barão; o negro correndo é ladrão. Quando você vai na discoteca que só tem brancos, aquele [funcionário] branco vai dar atenção a você, mas vai dar atenção mais ao branco e você fica no lado. Eu não sou racista. Somente tou falando a realidade.
Você acha que, um dia, o Brasil vai ter um presidente negro?
A gente espera que um dia vai ter um negro para resolver nossos problemas. Espero que um dia a gente esteja no bar ou no shopping, e um branco sorria pra gente, ou que os brancos tratem bem e respeitem as empregadas negras. Eu quero tudo isso pra minha vida—ter um presidente maravilhoso como Obama. Eu creio que ele vai ganhar. E creio que, nas próximas eleições, um negro vai ganhar de novo.
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