Como eu só tenho duas semanas e alguns dias até eu voltar aos EUA, eu já estou sentindo saudades. Minhas aulas já acabaram e agora a única coisa que eu tenho para fazer é pensar em cada coisa de que eu vou sentir a falta depois de ir embora. Mas esses dias eu estou sentindo bem mais alerta e observante. Pode ser porque eu sou de ferias, mas eu penso que é porque eu não quero perder as detalhes dessas últimas semanas aqui no Brasil. Agora eu quero ser uma esponja para absorver tantas lembranças quantas eu posso, para guardar, e rever no futuro. Como minha maquina fotográfica quebrou na semana passada vai ser ainda mais difícil lembrar de tudo que eu vou ver nas semanas que vêm, mas eu estou escrevendo também, e eu sei que (por causa da internet) eu sempre vou poder conversar com a galera do programa, meus professores e outros amigos para relembrar os momentos bons que eu experimentei aqui.
Na verdade, além da abundância de atividades culturais e experiências pessoais com as várias pessoas que eu conheci, eu aprendi muito na aula de português. Durante as eleições, a gente conversou muito sobre a política, e por isso eu virei mais ligada não só à política brasileira, mas também à política internacional. Embora eu ainda não leia o jornal daqui, eu gostei muito dos artigos que a gente leu na aula, particularmente aquele sobre analfabetismo aqui na Bahia. Eu fiquei tão inspirada por esse artigo que eu estou pensando agora em estudar como alfabetizar crianças e adultos. Na verdade, eu sou poeta e gostaria muito ensinar poesia e aulas de literatura, mas quando eu reparei que eu conheço pessoas que nem sabem ler a palavra “poema” ou qualquer outra palavra que pode ser útil na vida, eu decidi aprender mais sobre alfabetização. Mas esse interesse novo não significa que eu vou abandonar os escritores que a gente conheceu na aula. Por exemplo, eu adorei os poemas de Cecília Meirelles, para quem nossa sala de aula está chamada. Também gostei muito de Clarice Lispector, e estou feliz que eu finalmente tenho um nível de entendimento de português com que eu posso ler e reconhecer as brincadeiras de palavra.
Eu também estou reparando que com o trabalho de produzir um texto cada semana, eu estou escrevendo bem mais regularmente, que usualmente é difícil para mim. Embora eu gostasse da liberdade de escolher nossos assuntos, era muito legal ter tarefas especificas como a entrevista. Eu me senti como uma jornalista verdadeira. É uma pena que o semestre terminou tão cedo porque eu ainda tenho idéias e observações que não tinha a oportunidade de desenvolver aqui. Vou guardar esses assuntos para o futuro. Espero que vocês me visitem no meu blog de vez em quando. Era um grande prazer dialogar com vocês. Obrigada pela sua atenção, sua companhia, e suas respostas.
Beijos,
Aichlee
Veja no mapa de onde vêm nossos leitores. Seja bem vindo(a)!
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Minha despedida
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008
A questão de democracia racial no Brasil
O seguinte é um texto baseado em uma apresentação que eu fiz para o final da turma:

A questão de democracia racial no Brasil
O que é democracia racial?
A teoria de democracia racial diz que, em comparação aos EUA, nos países latino-americanos inclusive o Brasil, não existe o racismo intenso que caracterizou os relacionamentos raciais norte-americanos nos séculos XIX e XX.
A teoria esta baseada nesses três fatos:
1) Que, nos países latino-americanos, depois da abolição de escravidão, não existiam leis de segregação que permitiam discriminação racial.
2) Que, agora, não existe tanta violência racial (linchamentos e outros crimes de ódio) feita por grupos racistas como o KKK.
3) Que a miscigenação racial ocorreu muito na historia dos países latino-americanos
A teoria também diz que qualquer desigualdade racial que encontraria em América Latina existiria somente porque os recursos (como moradia boa, empregos com rendas agradáveis, e escolarização) antigamente eram negados por razoes racistas e não porque ainda existe racismo nesses países.

Aqui temos, Frank Tannenbaum, um sociólogo Americano que escreveu um livro, Escravo e Cidadão, que compara racismo nos EUA com racismo em América Latina. O livro, que foi publicado em 1947, sugere que existe democracia racial no Brasil. Eu li o livro no ano passado, e a maioria de meu entendimento de democracia racial vem dessa leitura.

Seguindo os teoristas da democracia racial, a igualdade racial existe em América Latina (e não nos EUA) por causa desses três fatores:
1) Como os colonistas ibéricos (que chegaram em América Latina) já tinham experimentado o governo dos mouros que durou quase 800 anos, não tinham aquele pensamento que pessoas com pele escura (quer dizer, os indígenas e os africanos) eram sub-humanos como pensaram os colonistas europeus (que chegaram em América do Norte.)
2) Ao contrario da doutrina puritana de América do Norte, catolicismo considerava os indígenas e os africanos como pessoas que tinham almas, então não tinham problemas interagindo pessoalmente com eles.
3) Os primeiros colonistas de América Latina não chegaram com suas famílias, como aconteceu em América do Norte e por causa disso eles tinham mais relacionamentos sexuais e emocionais com mulheres africanas e indígenas, o resultado sendo que ainda não se encontra discriminação racial por causa da miscigenação
Embora a idéia de democracia racial já esteja considerada um mito pelos sociólogos, ainda existem pessoas que chegam aqui no Brasil com a expectativa de achar um paraíso racial. Muitas vezes são afro-americanos.
Dois anos atrás eu li um artigo publicado em Essence Magazine, uma revista afro-americana, que enfocou nos homens afro-americanos que viajam cada ano para o Brasil. O artigo disse que todos os homens estavam largando mulheres afro-americanas para ficar com mulheres brasileiras, que eram prostitutas. Embora turismo sexual seja problemático aqui no Brasil, o artigo não tratou bem desse assunto e em vez disso virou uma reclamação xenofobica e ignorante. Eu pensei que o artigo era uma bobagem, mas tinha algumas respostas na parte de entrevista que eram mais interessantes. Os homens falaram que gostavam do Brasil mais do que os EUA porque no Brasil eles se sentem mais respeitados, pelas mulheres, pelos donos das lojas, e pelos garçons.
Na verdade, eu acho que eles estavam sentindo a valorização de ser americano e não de ser negro. Por que? Porque têm dinheiro. Geralmente profissionais da classe-media nos EUA, aqui eles são ricos. Se eles chegassem aqui e parecessem obviamente turistas com roupa americana, e falando inglês não teria como ficar ignorados nas lojas e restaurantes, ou considerados como ladrões ou traficantes. Por não ter sofrido discriminação parecida com ela que sofrem do dia a dia nos EUA, e também por ter visto (particularmente aqui em Salvador, que é um destino popular) a valorização da cultura negra, eles pensam que não existe problemas raciais no Brasil.

Aqui temos Ilê Aiyê, um bloco afro que tem muitas músicas contra racismo, sobre a valorização do negro no Brasil. O grupo é muito popular entre turistas.
Embora seja claro que todos os afro-americanos não pensam assim, eu queria falar do artigo só para mostrar que a idéia de democracia racial não é completamente antiquada.
Antes de chegar aqui, eu recebi um texto escrito por Professor Jefferson sobre ser negro no Brasil que ele escreveu para os estudantes do CIEE. No artigo ele tratou do mito de democracia racial e o papel que ele tem aqui no Brasil. Jeferson diz que a harmonia e evitação de confrontação racial fazem parte da nacionalidade brasileira, e também expressam a ideologia racial brasileira. Mas, embora ele avisasse que negros brasileiras não iam querer falar sobre racismo, eu já ouvi muitas coisas sobre racismo brasileiro, e vi ainda mais com meus próprios olhos.
Aqui, a desigualdade da moradia em Rio. Na frente tem apartamentos e hotéis de Copacabana, e no morro atrás tem uma favela.

Eu vi que não tem tantos negros bem escolarizados como brancos. Conheço várias pessoas analfabetas ou quase analfabetas. Eu conheço mais pessoas negras que não têm trabalho, ou que têm trabalho de serviço, como porteiro ou empregada. Eu já visitei duas favelas. Fui numa casa que não tinha água quente, nem gelador, nem comida na mesa. A mãe, o pai e 4 crianças moram na casa de uma sala e um quarto, separados só por uma cortina. Eu já vi quem é que janta nos bons restaurantes e quem dança nos boates chiques. Eu vi quem é que bebe na rua e quem vai para pagode. É assim como Brasil parece ser segregado sem o nome de segregação.

Aqui é uma mãe e suas filhas que moram no interior, numa cidade chamada Aratuípe. Pode ver que não tem muita roupa, nem tem vidro na janela.
Alem de ter leis contra racismo no Brasil, ainda tem racismo estrutural e sutil. Como Oracy Nogueira disse, discriminação racial no Brasil está baseada na aparência e não na origem. Então, pessoas com pele escura que seriam discriminadas podem equilibrar as desvantagens da sua cor com a sua inteligência, com dinheiro, com talento, ou por ser bem-vestido. Mas, ainda é difícil para um afro-descendente subir na sociedade porque o que determine sua posição na hierarquia social é muitas vezes a família, a escolarização, e o emprego. Então, existe a idéia que para subir na sociedade brasileira, um negro tem que ter um casamento inter-racial, ou fazer parte de atividades culturais ou seja como capoeirista ou como musico.

Aqui é uma casa de família que esta faltando um parede, com tijolos segurando o telhado.
Eu acho que um outro modo de subir na sociedade vai virar popular entre os negros aqui no Brasil. Durante a campanha de Obama, eu assisti no jornal inglês, um segmento sobre os sete políticos brasileiros que adotaram o nome de Obama para as eleições. O segmento enfocou num cara em particular, Cláudio Henrique, que mora numa cidade na periferia do Rio, onde ser político é um risco da vida. Ele queria ser prefeito para ajudar os moradores de sua cidade, que são pobres e sempre esquecidos pelo governo. Inspirado por Obama, ele falou muito de esperança e mudanças, que ele era o único candidata negro e que nunca tinha prefeito negro lá na cidade dele. Infelizmente ele e todos os outros Obamas brasileiros perderam.

Aqui é um quadro de Obama no Shopping Barra.
Mas os aspirantes políticos não estão sozinhos no culto de Obama. Têm muitas pessoas negras aqui no Brasil e nos EUA também, que pensam que os problemas raciais dos EUA acabaram com a eleição dele. Como ele vem de uma família misturada, e mostrou que podia juntar pessoas de varias raças para elegê-lo, crentes no mito de democracia racial tem um novo interes nele, porque a vitória dele pode simbolizar a superação da raça, e a criação de um mundo sem racismo. Eu acho que a vitória dele mostrou que negros no mundo inteiro tem oportunidades na vida fora de ser atletas ou músicos, mas eu nunca vou dizer que o racismo terminou por causa dele. A gente ainda tem muito mais trabalho pra fazer.

A questão de democracia racial no Brasil
O que é democracia racial?
A teoria de democracia racial diz que, em comparação aos EUA, nos países latino-americanos inclusive o Brasil, não existe o racismo intenso que caracterizou os relacionamentos raciais norte-americanos nos séculos XIX e XX.
A teoria esta baseada nesses três fatos:
1) Que, nos países latino-americanos, depois da abolição de escravidão, não existiam leis de segregação que permitiam discriminação racial.
2) Que, agora, não existe tanta violência racial (linchamentos e outros crimes de ódio) feita por grupos racistas como o KKK.
3) Que a miscigenação racial ocorreu muito na historia dos países latino-americanos
A teoria também diz que qualquer desigualdade racial que encontraria em América Latina existiria somente porque os recursos (como moradia boa, empregos com rendas agradáveis, e escolarização) antigamente eram negados por razoes racistas e não porque ainda existe racismo nesses países.

Aqui temos, Frank Tannenbaum, um sociólogo Americano que escreveu um livro, Escravo e Cidadão, que compara racismo nos EUA com racismo em América Latina. O livro, que foi publicado em 1947, sugere que existe democracia racial no Brasil. Eu li o livro no ano passado, e a maioria de meu entendimento de democracia racial vem dessa leitura.

Seguindo os teoristas da democracia racial, a igualdade racial existe em América Latina (e não nos EUA) por causa desses três fatores:
1) Como os colonistas ibéricos (que chegaram em América Latina) já tinham experimentado o governo dos mouros que durou quase 800 anos, não tinham aquele pensamento que pessoas com pele escura (quer dizer, os indígenas e os africanos) eram sub-humanos como pensaram os colonistas europeus (que chegaram em América do Norte.)
2) Ao contrario da doutrina puritana de América do Norte, catolicismo considerava os indígenas e os africanos como pessoas que tinham almas, então não tinham problemas interagindo pessoalmente com eles.
3) Os primeiros colonistas de América Latina não chegaram com suas famílias, como aconteceu em América do Norte e por causa disso eles tinham mais relacionamentos sexuais e emocionais com mulheres africanas e indígenas, o resultado sendo que ainda não se encontra discriminação racial por causa da miscigenação
Embora a idéia de democracia racial já esteja considerada um mito pelos sociólogos, ainda existem pessoas que chegam aqui no Brasil com a expectativa de achar um paraíso racial. Muitas vezes são afro-americanos.
Dois anos atrás eu li um artigo publicado em Essence Magazine, uma revista afro-americana, que enfocou nos homens afro-americanos que viajam cada ano para o Brasil. O artigo disse que todos os homens estavam largando mulheres afro-americanas para ficar com mulheres brasileiras, que eram prostitutas. Embora turismo sexual seja problemático aqui no Brasil, o artigo não tratou bem desse assunto e em vez disso virou uma reclamação xenofobica e ignorante. Eu pensei que o artigo era uma bobagem, mas tinha algumas respostas na parte de entrevista que eram mais interessantes. Os homens falaram que gostavam do Brasil mais do que os EUA porque no Brasil eles se sentem mais respeitados, pelas mulheres, pelos donos das lojas, e pelos garçons.
Na verdade, eu acho que eles estavam sentindo a valorização de ser americano e não de ser negro. Por que? Porque têm dinheiro. Geralmente profissionais da classe-media nos EUA, aqui eles são ricos. Se eles chegassem aqui e parecessem obviamente turistas com roupa americana, e falando inglês não teria como ficar ignorados nas lojas e restaurantes, ou considerados como ladrões ou traficantes. Por não ter sofrido discriminação parecida com ela que sofrem do dia a dia nos EUA, e também por ter visto (particularmente aqui em Salvador, que é um destino popular) a valorização da cultura negra, eles pensam que não existe problemas raciais no Brasil.

Aqui temos Ilê Aiyê, um bloco afro que tem muitas músicas contra racismo, sobre a valorização do negro no Brasil. O grupo é muito popular entre turistas.
Embora seja claro que todos os afro-americanos não pensam assim, eu queria falar do artigo só para mostrar que a idéia de democracia racial não é completamente antiquada.
Antes de chegar aqui, eu recebi um texto escrito por Professor Jefferson sobre ser negro no Brasil que ele escreveu para os estudantes do CIEE. No artigo ele tratou do mito de democracia racial e o papel que ele tem aqui no Brasil. Jeferson diz que a harmonia e evitação de confrontação racial fazem parte da nacionalidade brasileira, e também expressam a ideologia racial brasileira. Mas, embora ele avisasse que negros brasileiras não iam querer falar sobre racismo, eu já ouvi muitas coisas sobre racismo brasileiro, e vi ainda mais com meus próprios olhos.
Aqui, a desigualdade da moradia em Rio. Na frente tem apartamentos e hotéis de Copacabana, e no morro atrás tem uma favela.

Eu vi que não tem tantos negros bem escolarizados como brancos. Conheço várias pessoas analfabetas ou quase analfabetas. Eu conheço mais pessoas negras que não têm trabalho, ou que têm trabalho de serviço, como porteiro ou empregada. Eu já visitei duas favelas. Fui numa casa que não tinha água quente, nem gelador, nem comida na mesa. A mãe, o pai e 4 crianças moram na casa de uma sala e um quarto, separados só por uma cortina. Eu já vi quem é que janta nos bons restaurantes e quem dança nos boates chiques. Eu vi quem é que bebe na rua e quem vai para pagode. É assim como Brasil parece ser segregado sem o nome de segregação.

Aqui é uma mãe e suas filhas que moram no interior, numa cidade chamada Aratuípe. Pode ver que não tem muita roupa, nem tem vidro na janela.
Alem de ter leis contra racismo no Brasil, ainda tem racismo estrutural e sutil. Como Oracy Nogueira disse, discriminação racial no Brasil está baseada na aparência e não na origem. Então, pessoas com pele escura que seriam discriminadas podem equilibrar as desvantagens da sua cor com a sua inteligência, com dinheiro, com talento, ou por ser bem-vestido. Mas, ainda é difícil para um afro-descendente subir na sociedade porque o que determine sua posição na hierarquia social é muitas vezes a família, a escolarização, e o emprego. Então, existe a idéia que para subir na sociedade brasileira, um negro tem que ter um casamento inter-racial, ou fazer parte de atividades culturais ou seja como capoeirista ou como musico.

Aqui é uma casa de família que esta faltando um parede, com tijolos segurando o telhado.
Eu acho que um outro modo de subir na sociedade vai virar popular entre os negros aqui no Brasil. Durante a campanha de Obama, eu assisti no jornal inglês, um segmento sobre os sete políticos brasileiros que adotaram o nome de Obama para as eleições. O segmento enfocou num cara em particular, Cláudio Henrique, que mora numa cidade na periferia do Rio, onde ser político é um risco da vida. Ele queria ser prefeito para ajudar os moradores de sua cidade, que são pobres e sempre esquecidos pelo governo. Inspirado por Obama, ele falou muito de esperança e mudanças, que ele era o único candidata negro e que nunca tinha prefeito negro lá na cidade dele. Infelizmente ele e todos os outros Obamas brasileiros perderam.

Aqui é um quadro de Obama no Shopping Barra.
Mas os aspirantes políticos não estão sozinhos no culto de Obama. Têm muitas pessoas negras aqui no Brasil e nos EUA também, que pensam que os problemas raciais dos EUA acabaram com a eleição dele. Como ele vem de uma família misturada, e mostrou que podia juntar pessoas de varias raças para elegê-lo, crentes no mito de democracia racial tem um novo interes nele, porque a vitória dele pode simbolizar a superação da raça, e a criação de um mundo sem racismo. Eu acho que a vitória dele mostrou que negros no mundo inteiro tem oportunidades na vida fora de ser atletas ou músicos, mas eu nunca vou dizer que o racismo terminou por causa dele. A gente ainda tem muito mais trabalho pra fazer.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Um dia na praia...
Passando o fim de semana no Morro de São Paulo, eu me dei conta da economia turística lá e me lembrei que eu queria fazer alguns comentários sobre a economia da praia aqui em Salvador. Como eu sou de uma cidade (Filadélfia) que não tem praia, eu só conheço a praia americana de longe. Embora tivesse ido a praia em Nova Jersey não mais que cinco vezes na minha vida, eu sei que o espaço comercial lá e o Boardwalk, a calçada feita de madeira ao lado da areia, onde tem hotéis, restaurantes, lojas que vendem lembranças, a parque de diversão, e minha lugar preferida, a fliperama. Quando eu cheguei aqui em Salvador, eu fiquei fascinada com a diferença entre o comércio da praia brasileira e o das praias que eu conheci nos EUA.
Primeiro, sem o Boardwalk como espaço comercial, os vendedores levam todos os seus produtos nas costas pela areia e andam de um lado ao outro, tentando vender suas mercadorias. Eles geralmente reconhecem os gringos de longe e muitos sabem falar pelo menos o nome do seu produto em inglês. Quase todos os vendedores são simpáticos (quem quer perder clientes?) mas alguns também são tão agressivos até que você pode se convencer que está precisando de alguma coisa que nem poderia usar na praia.
Eles têm de tudo! Têm pulseiras tecidas, biquínis de coco, chapéus de folha de palmeira, brincos, colares de contas de vários tamanhos e cores, DVDs e CDs pirateados, redes de descanso, vestidos e muito mais. Têm coisas que você pode precisar na praia como protetor solar, bronzeador, creme para oxigenação do cabelo, óculos de sol, e cangas. Têm também coisas que eu nem podia imaginar encontrar na praia como tatuagens de henna, consultação de tarô, livros de segunda mão, quadros pintados, e manicures. As únicas coisas que você não pode vender na praia são a areia e o mar.
Pode ser velho ou ainda criança, tem vendedores de todo tipo, inclusive eu! Inspirada pela manicurista eu já fiz meu próprio trabalho lá, enrolando o cabelo rasta de um amigo meu, depois do qual eu ganhei o interesse de mais três clientes. Eu nunca imaginei abrir um salão de beleza, contudo na praia, até eu cheguei aqui.
Mas os vendedores de roupa e os artesanatos não são os únicos trabalhadores da praia, também tem os caras que aluguem cadeiras e sombreiros enquanto vendendo bebidas. Embora a prática de alugar cadeiras seja ilegal, como eu li nesse artigo, é muito comum, particularmente no Porto da Barra. Tem vários grupos (devem ser chamados empresas pequenas) competindo alugar espaço na areia e cada um tem seus clientes fiéis, que ficam na mesma parte da praia cada vez que visitam.
Além de tudo, os vendedores dos quais eu gosto mais são os que vendem merendas. Embora eu goste de merendar, eu prefiro eles mais por causa do seu jeito de chamar a atenção dos consumidores. Cada um tem um anúncio reconhecível. Por exemplo, o velho que vende picolé tem um assobio que você pode ouvir de longe. O cara que vende limonada sempre fala, “O limão chegou! Limonada!” Finalmente, ninguém pode esquecer dos vários gritos de "Queijo!!" ou da música dos vendedores de Camarão do João com sua repetição de camarão e João em várias frases. Não dá muito para relaxar na praia assim com tantas vendas, mas para mim, não é um problema porque eu gosto mais de socializar e observar as pessoas e suas interações.
Foi pelas minhas observações que eu descobri que ainda tinha outras pessoas trabalhando na praia sem parecer trabalhar. Tem guias turísticas fazendo amizades com gringos, oferecendo levá-los aos lugares bons da cidade. Tem prostitutas. Tem “caçadores” que vivem namorando gringas. Tem alguns capoeiristas que treinam e dão aula na praia e outros que dão saltos espectaculares para chamar a atenção dos gringos que podem levá-los fora do país para fazer apresentações. Tem pessoas que trabalham só pela conversa. Tem pessoas fazendo propaganda para boates e restaurantes, que convidam os turistas às festas. Tem outras que falam de apartamentos vazios ou que recomendam pousadas boas. Todo isso é trabalho que acontece na praia.
E no final do dia, depois de aplaudir o sol, você pode ver os pescadores. Pode ver pessoas que recolhem latas e garrafas, outras que colocam o lixo nas lixeiras, e outras que esvaziam as lixeiras. Tem varredores que tiram a areia da calçada à noite e outros que lavam as escadas de manha cedo. E daí tudo se repete de novo.
Primeiro, sem o Boardwalk como espaço comercial, os vendedores levam todos os seus produtos nas costas pela areia e andam de um lado ao outro, tentando vender suas mercadorias. Eles geralmente reconhecem os gringos de longe e muitos sabem falar pelo menos o nome do seu produto em inglês. Quase todos os vendedores são simpáticos (quem quer perder clientes?) mas alguns também são tão agressivos até que você pode se convencer que está precisando de alguma coisa que nem poderia usar na praia.
Eles têm de tudo! Têm pulseiras tecidas, biquínis de coco, chapéus de folha de palmeira, brincos, colares de contas de vários tamanhos e cores, DVDs e CDs pirateados, redes de descanso, vestidos e muito mais. Têm coisas que você pode precisar na praia como protetor solar, bronzeador, creme para oxigenação do cabelo, óculos de sol, e cangas. Têm também coisas que eu nem podia imaginar encontrar na praia como tatuagens de henna, consultação de tarô, livros de segunda mão, quadros pintados, e manicures. As únicas coisas que você não pode vender na praia são a areia e o mar.
Pode ser velho ou ainda criança, tem vendedores de todo tipo, inclusive eu! Inspirada pela manicurista eu já fiz meu próprio trabalho lá, enrolando o cabelo rasta de um amigo meu, depois do qual eu ganhei o interesse de mais três clientes. Eu nunca imaginei abrir um salão de beleza, contudo na praia, até eu cheguei aqui.
Mas os vendedores de roupa e os artesanatos não são os únicos trabalhadores da praia, também tem os caras que aluguem cadeiras e sombreiros enquanto vendendo bebidas. Embora a prática de alugar cadeiras seja ilegal, como eu li nesse artigo, é muito comum, particularmente no Porto da Barra. Tem vários grupos (devem ser chamados empresas pequenas) competindo alugar espaço na areia e cada um tem seus clientes fiéis, que ficam na mesma parte da praia cada vez que visitam.
Além de tudo, os vendedores dos quais eu gosto mais são os que vendem merendas. Embora eu goste de merendar, eu prefiro eles mais por causa do seu jeito de chamar a atenção dos consumidores. Cada um tem um anúncio reconhecível. Por exemplo, o velho que vende picolé tem um assobio que você pode ouvir de longe. O cara que vende limonada sempre fala, “O limão chegou! Limonada!” Finalmente, ninguém pode esquecer dos vários gritos de "Queijo!!" ou da música dos vendedores de Camarão do João com sua repetição de camarão e João em várias frases. Não dá muito para relaxar na praia assim com tantas vendas, mas para mim, não é um problema porque eu gosto mais de socializar e observar as pessoas e suas interações.
Foi pelas minhas observações que eu descobri que ainda tinha outras pessoas trabalhando na praia sem parecer trabalhar. Tem guias turísticas fazendo amizades com gringos, oferecendo levá-los aos lugares bons da cidade. Tem prostitutas. Tem “caçadores” que vivem namorando gringas. Tem alguns capoeiristas que treinam e dão aula na praia e outros que dão saltos espectaculares para chamar a atenção dos gringos que podem levá-los fora do país para fazer apresentações. Tem pessoas que trabalham só pela conversa. Tem pessoas fazendo propaganda para boates e restaurantes, que convidam os turistas às festas. Tem outras que falam de apartamentos vazios ou que recomendam pousadas boas. Todo isso é trabalho que acontece na praia.
E no final do dia, depois de aplaudir o sol, você pode ver os pescadores. Pode ver pessoas que recolhem latas e garrafas, outras que colocam o lixo nas lixeiras, e outras que esvaziam as lixeiras. Tem varredores que tiram a areia da calçada à noite e outros que lavam as escadas de manha cedo. E daí tudo se repete de novo.
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terça-feira, 4 de novembro de 2008
Obama, O Cara

O dia chegou! Hoje milhões de americanos vão votar para o novo presidente dos EUA. Como eu já mandei meu voto (para Obama, claro) pelo correio e está quase garantido que ele vai ganhar, eu já estou pronta para fazer uma festa hoje a noite.
Antigamente eu pensava que seria melhor estar nos EUA para celebrar esse grande momento da história do país, mas como eu descobri recentemente, eu não vou brindar à vitoria de Obama sozinha. Há muitos brasileiros que estão torcendo para ele também, inclusive meu namorado, Alan, que o admira muito. O texto seguinte vem de uma entrevista que eu fiz com Alan ontem, na véspera da eleição.
Você viu os quadros de Obama no Shopping Barra e a propaganda dele na rua?
Eu vi. Vi a foto de Obama na rua em que eu passava. Eu vi Obama em vários lugares. Eu tenho uma camisa de Obama que ganhei como presente de meu amigo que mora nos EUA. E vesti porque ele é o cara. Quero que Obama faça tudo que Bush só estragou. Aqui no Brasil, tem muitas pessoas que amam ele. Todo mundo tá torcendo para ele. Cada passo que ele dá pra fazer palestra, a gente tá assistindo.
O que você pensa sobre Obama?
Eu sou uma pessoa brasileira. Sou negro, entendeu? E espero que Obama ganhe porque vai ser o primeiro negro ser presidente na história dos EUA. Tomara que ganhe porque vai ser bom para nós que têm pele negra e também vai ser bom para o país dos EUA que ele vai direitar tudo. Porque Bush só entrou pra fazer coisas que não era pra fazer. Bush tem uma mente de criança. E Obama, não. Ele vai ser o cara. Vai ser o homem dos EUA. E o outro, qual é o nome dele?
McCain.
McCain é somente um…Não sou racista, não. Eu sou eu, negro…Mas, McCain vai ser outro branco como Bush, que vai querer fazer guerra também como Bush fez…Por que a crise está agora nos EUA? Por causa de Bush porque ele não pensou antes como entrou na presidência. Se ele pensasse, não fazia nada disso.
O que é que você já ouviu falado sobre Obama na TV e no rádio?
Ouvi que ele tá na frente de McCain e que todo mundo tá torcendo pra ele. Nós brasileiros negros, a gente que trabalha nos lugares mais fracos do país—como garçom, como varredor da rua—a gente precisa superar mais. A gente tá rezando pra Obama ganhar porque, para nós, ele vai ser o exemplo da nossa vida como Nelson Mandela, que combateu a discriminação na África do Sul. A gente aqui tá esperando a oportunidade de ser alguém na vida, porque a gente ainda não tem toda nossa liberdade. Então, eu acho assim, não é só pra mim, que sou negro, mas para todas as pessoas que vivem no planeta, que têm pele negra, vai ser feliz que ele ganhar. Um presidente negro vai ver como as pessoas negras estão sofrendo. Porque agora não têm um presidente que vai lá e cuide das pessoas. Teve agora a situação em Nova Orleans—a Katarina—e Bush nem ligou direito para lá, que lá só tem pessoas negras.
Mas tem pessoas pobres e brancos também.
Eu vi na televisão. Eu sou assistador brasileiro e eu vi. Então fosse que Obama estivesse no lugar, como negro ele já tava direitando tudo lá.
Se Obama for eleito o que é que vai acontecer?
Eu espero que Obama seja um cara com carácter, que ajude as pessoas. Também tem que cumprir as coisas que ele falou antes da eleição. Tem que juntar o negro com o branco. Têm que ser a mesma coisa, que a gente é humano. A gente só tem uma pele só. Você tem uma orelha. Eu tenho um nariz…Mas eu espero que ele ganhe não só porque eu sou negro, é porque ele tem inteligência na cabeça. Vai ser a evolução do mundo. Obama vai ser o presidente que vai iluminar o mundo. Ele vai ser o melhor cara que vai ter. Bill Clinton é bom. George Bush é uma merda. Se ele fosse um presidente bom, não fazia as coisas que fez. Eu espero que Obama entre e tire a guerra do Iraque, e traga as tropas para os EUA porque lá é o país deles [os iraqis] não é o país dos EUA…Mas, Obama também pode ser um negro que não pode fazer nada. Posso falar e fazer nada. Não falei que Obama é o rei. Eu só espero que ele seja um cara que respeite todo mundo—branco, negro, azul, vermelho. Não importa a cor.
Essa é a primeira vez que os brasileiros torceram tanto para um presidente de fora?
Sim, é a primeira vez. É porque ele é negro. Não é racismo, não. É porque ele é o primeiro negro dos EUA...Eu quero que Obama ganhe pra tirar toda essa discriminação do Brasil. O branco correndo é barão; o negro correndo é ladrão. Quando você vai na discoteca que só tem brancos, aquele [funcionário] branco vai dar atenção a você, mas vai dar atenção mais ao branco e você fica no lado. Eu não sou racista. Somente tou falando a realidade.
Você acha que, um dia, o Brasil vai ter um presidente negro?
A gente espera que um dia vai ter um negro para resolver nossos problemas. Espero que um dia a gente esteja no bar ou no shopping, e um branco sorria pra gente, ou que os brancos tratem bem e respeitem as empregadas negras. Eu quero tudo isso pra minha vida—ter um presidente maravilhoso como Obama. Eu creio que ele vai ganhar. E creio que, nas próximas eleições, um negro vai ganhar de novo.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
A camuflagem da aparência
Eu sou reservada, e como meu namorado e os amigos dele gostam de dizer, eu fico na minha, quietinha mas sempre ligada à conversa. Como eu estou observando, baianos são mais para fora, mais tagarelas. E eu não gosto de rotular, mas nunca encontrei um baiano tímido. Deve ser uma espécie rara. Na verdade, não sei ainda, qual é que me faz mais estrangeira aqui em Salvador, ou minha nacionalidade ou meu jeito de ficar calada. Sendo uma “nada falante,” eu não divulgo minha identidade estadunidense muito através do meu sotaque. Sem falar, eu fico escondida na camuflagem da minha pele. Bronzeada e vestida de roupa brasileira, eu viro de gringa afro-americana a negona rasta, uma fantasia que possui suas próprias rotulações.
Embora não seja muito comum ver uma menina baiana com cabelo rasta, já vi duas, então eu vou dizer que meu cabelo ainda dá para esconder minha identidade. Como eu estou morando na Barra, estou observando que turistas chamam muita atenção de pessoas querendo dinheiro. “Olá, meu amigo” ou “Hello, my friend” são frases bem ouvidas nas ruas de Barra, particularmente perto da praia onde a palavra “amigo” vira a significar “estrangeiro que tem dinheiro, ou algo mais que eu estou querendo.” Por ter me escondido em silêncio, eu ainda conheço pessoas na Barra que me chamam de “Americana,” mas ainda posso dizer que eu nunca fui roubada por ninguém. Eu acho que isso é porque eu tenho a aparência de alguém que não teria dinheiro se fosse brasileira. Primeiro, sou negra. E segundo, meu cabelo não é “bem-cuidado” nos olhares de todos, e por isso pode ser igual aos cabelos dos hippies que vendem brincos na praia, ou dos capoeiristas, que, até recentemente, não foram tão respeitados pela sociedade.
Nos pensamentos das pessoas preconceituosas eu não pareço como eu tenho um trabalho certo ou que eu possuo nenhuma coisa de valor. (Já encontrei pessoas que não acreditaram que eu poderia ter um cartão de credito no meu nome.) Poderia ser que eu gastei tudo comprando maconha e álbuns de Lucky Dube? Mas interessantemente, ninguém nunca me ofereceu drogas na rua. Na verdade, a maioridade das pessoas que me aproximam só querem saber se eu posso fazer o cabelo deles, ou como foi que eu fiz o meu. É a mesma idéia no Pelourinho. Nenhum vendedor agressivo tentou me dar um “presente” pago de uma fita de Bom Fim, que, amarrada no pulso, é uma marca de turista ainda que seja usada pelos brasileiros também. Embora seja baseada em preconceitos, minha camuflagem de ser uma rasta brasileira me ajuda evitar situações chatas com pessoas interesseiras, ou seja, pessoas que sobrevivem pelas bolsas dos gringos.
Mas ao entrar no meu apartamento, tudo muda. Os únicos negros que eu vejo no meu edifício são os porteiros e as empregadas. Tenho vizinhos que têm medo de mim até eles correrem ao elevador para não ter que dividir comigo. (Isso aconteceu só alguns dias atrás!) Tenho outros que não me cumprimentam por pensar que eu sou empregada. Tenho outros que fecham o portão atrás deles, sabendo que eu estou chegando para entrar. Tenho outros que ficam olhando para mim, quando eu encontro com meu namorado (quem também é negro) no portão. Eles ficam olhando como nós estejamos esperando alguém sair para poder roubá-lo. Demoraria muito, se eu tentasse de lembrar cada momento de desconforto e discriminação por causa da minha aparência. Mas nesses momentos eu não fico muito chateada porque eu gosto mais de ver as caras de surpresa quando eu pego o elevador social (em vez do outro de serviço) ou quando eu falo inglês no meu celular. Eu não tenho que provar nada para eles. Na verdade, eu só preferia mostrar para eles que seus preconceitos são errados, que eu trabalhei e estudei muito para chegar aqui no Brasil e que eu não preciso de roubar ninguém.
Embora não seja muito comum ver uma menina baiana com cabelo rasta, já vi duas, então eu vou dizer que meu cabelo ainda dá para esconder minha identidade. Como eu estou morando na Barra, estou observando que turistas chamam muita atenção de pessoas querendo dinheiro. “Olá, meu amigo” ou “Hello, my friend” são frases bem ouvidas nas ruas de Barra, particularmente perto da praia onde a palavra “amigo” vira a significar “estrangeiro que tem dinheiro, ou algo mais que eu estou querendo.” Por ter me escondido em silêncio, eu ainda conheço pessoas na Barra que me chamam de “Americana,” mas ainda posso dizer que eu nunca fui roubada por ninguém. Eu acho que isso é porque eu tenho a aparência de alguém que não teria dinheiro se fosse brasileira. Primeiro, sou negra. E segundo, meu cabelo não é “bem-cuidado” nos olhares de todos, e por isso pode ser igual aos cabelos dos hippies que vendem brincos na praia, ou dos capoeiristas, que, até recentemente, não foram tão respeitados pela sociedade.
Nos pensamentos das pessoas preconceituosas eu não pareço como eu tenho um trabalho certo ou que eu possuo nenhuma coisa de valor. (Já encontrei pessoas que não acreditaram que eu poderia ter um cartão de credito no meu nome.) Poderia ser que eu gastei tudo comprando maconha e álbuns de Lucky Dube? Mas interessantemente, ninguém nunca me ofereceu drogas na rua. Na verdade, a maioridade das pessoas que me aproximam só querem saber se eu posso fazer o cabelo deles, ou como foi que eu fiz o meu. É a mesma idéia no Pelourinho. Nenhum vendedor agressivo tentou me dar um “presente” pago de uma fita de Bom Fim, que, amarrada no pulso, é uma marca de turista ainda que seja usada pelos brasileiros também. Embora seja baseada em preconceitos, minha camuflagem de ser uma rasta brasileira me ajuda evitar situações chatas com pessoas interesseiras, ou seja, pessoas que sobrevivem pelas bolsas dos gringos.
Mas ao entrar no meu apartamento, tudo muda. Os únicos negros que eu vejo no meu edifício são os porteiros e as empregadas. Tenho vizinhos que têm medo de mim até eles correrem ao elevador para não ter que dividir comigo. (Isso aconteceu só alguns dias atrás!) Tenho outros que não me cumprimentam por pensar que eu sou empregada. Tenho outros que fecham o portão atrás deles, sabendo que eu estou chegando para entrar. Tenho outros que ficam olhando para mim, quando eu encontro com meu namorado (quem também é negro) no portão. Eles ficam olhando como nós estejamos esperando alguém sair para poder roubá-lo. Demoraria muito, se eu tentasse de lembrar cada momento de desconforto e discriminação por causa da minha aparência. Mas nesses momentos eu não fico muito chateada porque eu gosto mais de ver as caras de surpresa quando eu pego o elevador social (em vez do outro de serviço) ou quando eu falo inglês no meu celular. Eu não tenho que provar nada para eles. Na verdade, eu só preferia mostrar para eles que seus preconceitos são errados, que eu trabalhei e estudei muito para chegar aqui no Brasil e que eu não preciso de roubar ninguém.
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terça-feira, 14 de outubro de 2008
Minha Apresentação
Olá pessoal:
O meu nome é Aichlee e eu tenho um grande prazer de participar desse blog com minhas colegas da aula de português. Eu tenho 21 anos e estou no meu quarto ano da faculdade na Universidade de Pennsylvania nos Estados Unidos. O meu curso é Letras e meus estudos se concentram particularmente na literatura da língua inglesa. Eu pretendo ser escritora depois de me formar. Embora meus estudos aqui na UCSAL e na UFBA não tenham muito a ver com meu curso lá na Filadélfia, eu estou vendo meus seis meses em Salvador como uma oportunidade de aprender fora da sala da aula tradicional.
Na verdade, essa é minha segunda vez aqui no Brasil. Eu passei um mês em Salvador dois anos atrás (eu estava visitando uma amiga que morava aqui) e fiquei tão interessada pela cultura que eu peguei logo uma aula de português quando eu voltei para os Estados Unidos. Querendo praticar a língua e também matar as saudades do Brasil, eu aluguei cada DVD de filmes brasileiros que estava disponível na biblioteca, até eu ver todos. Teve uma vez também que eu quase virava viciada em MPB (música popular brasileira) que eu não conseguia ficar bem sem ouvir pelo menos um som de Gilberto Gil ou Jorge Ben por dia. Eu toquei os CDs que eu tinha de Ilê Aiyê e Gerônimo tantas vezes que hoje não funcionam. Depois de um ano eu já estava morrendo de vontade de voltar para cá. Como eu nem tinha dinheiro nem tempo livre para viajar (que estou com pressa de me formar) eu decidi candidatar-me a um programa de intercâmbio e foi assim que eu entrei no CIEE Salvador.
Embora essa atmosfera acadêmica esteja bem mais tranqüila, eu não estou aqui só para curtir as férias. Além de vir para me familiarizar mais com a língua e a cultura literária, eu vim para pesquisar para minha tese em poesia, que é sobre turismo e a mulher baiana no imaginário estrangeiro. Eu não sei ainda de onde veio essa idéia mas acho que é bem interessante. Que bom que o tema do blog é a vida estrangeira no Brasil. O que eu gostaria de abordar nos textos do blog é o seguinte: As vantagens e desvantagens da camuflagem da minha nacionalidade; A economia da praia e as pessoas que trabalham lá; A idéia de ser bem-vestido, discriminação contra classe social e a aparência turística; e finalmente quero comparar a imagem do Brasil nos filmes contra o Brasil na vida real. Eu estou bem entusiasmada de pensar mais nesses assuntos e espero que vocês leitores sejam bem-vindos a responder aos meus textos.
Até mais,
Aichlee
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