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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A questão de democracia racial no Brasil

O seguinte é um texto baseado em uma apresentação que eu fiz para o final da turma:


A questão de democracia racial no Brasil

O que é democracia racial?

A teoria de democracia racial diz que, em comparação aos EUA, nos países latino-americanos inclusive o Brasil, não existe o racismo intenso que caracterizou os relacionamentos raciais norte-americanos nos séculos XIX e XX.

A teoria esta baseada nesses três fatos:

1) Que, nos países latino-americanos, depois da abolição de escravidão, não existiam leis de segregação que permitiam discriminação racial.

2) Que, agora, não existe tanta violência racial (linchamentos e outros crimes de ódio) feita por grupos racistas como o KKK.

3) Que a miscigenação racial ocorreu muito na historia dos países latino-americanos

A teoria também diz que qualquer desigualdade racial que encontraria em América Latina existiria somente porque os recursos (como moradia boa, empregos com rendas agradáveis, e escolarização) antigamente eram negados por razoes racistas e não porque ainda existe racismo nesses países.



Aqui temos, Frank Tannenbaum, um sociólogo Americano que escreveu um livro, Escravo e Cidadão, que compara racismo nos EUA com racismo em América Latina. O livro, que foi publicado em 1947, sugere que existe democracia racial no Brasil. Eu li o livro no ano passado, e a maioria de meu entendimento de democracia racial vem dessa leitura.



Seguindo os teoristas da democracia racial, a igualdade racial existe em América Latina (e não nos EUA) por causa desses três fatores:

1) Como os colonistas ibéricos (que chegaram em América Latina) já tinham experimentado o governo dos mouros que durou quase 800 anos, não tinham aquele pensamento que pessoas com pele escura (quer dizer, os indígenas e os africanos) eram sub-humanos como pensaram os colonistas europeus (que chegaram em América do Norte.)

2) Ao contrario da doutrina puritana de América do Norte, catolicismo considerava os indígenas e os africanos como pessoas que tinham almas, então não tinham problemas interagindo pessoalmente com eles.

3) Os primeiros colonistas de América Latina não chegaram com suas famílias, como aconteceu em América do Norte e por causa disso eles tinham mais relacionamentos sexuais e emocionais com mulheres africanas e indígenas, o resultado sendo que ainda não se encontra discriminação racial por causa da miscigenação

Embora a idéia de democracia racial já esteja considerada um mito pelos sociólogos, ainda existem pessoas que chegam aqui no Brasil com a expectativa de achar um paraíso racial. Muitas vezes são afro-americanos.

Dois anos atrás eu li um artigo publicado em Essence Magazine, uma revista afro-americana, que enfocou nos homens afro-americanos que viajam cada ano para o Brasil. O artigo disse que todos os homens estavam largando mulheres afro-americanas para ficar com mulheres brasileiras, que eram prostitutas. Embora turismo sexual seja problemático aqui no Brasil, o artigo não tratou bem desse assunto e em vez disso virou uma reclamação xenofobica e ignorante. Eu pensei que o artigo era uma bobagem, mas tinha algumas respostas na parte de entrevista que eram mais interessantes. Os homens falaram que gostavam do Brasil mais do que os EUA porque no Brasil eles se sentem mais respeitados, pelas mulheres, pelos donos das lojas, e pelos garçons.

Na verdade, eu acho que eles estavam sentindo a valorização de ser americano e não de ser negro. Por que? Porque têm dinheiro. Geralmente profissionais da classe-media nos EUA, aqui eles são ricos. Se eles chegassem aqui e parecessem obviamente turistas com roupa americana, e falando inglês não teria como ficar ignorados nas lojas e restaurantes, ou considerados como ladrões ou traficantes. Por não ter sofrido discriminação parecida com ela que sofrem do dia a dia nos EUA, e também por ter visto (particularmente aqui em Salvador, que é um destino popular) a valorização da cultura negra, eles pensam que não existe problemas raciais no Brasil.



Aqui temos Ilê Aiyê, um bloco afro que tem muitas músicas contra racismo, sobre a valorização do negro no Brasil. O grupo é muito popular entre turistas.

Embora seja claro que todos os afro-americanos não pensam assim, eu queria falar do artigo só para mostrar que a idéia de democracia racial não é completamente antiquada.

Antes de chegar aqui, eu recebi um texto escrito por Professor Jefferson sobre ser negro no Brasil que ele escreveu para os estudantes do CIEE. No artigo ele tratou do mito de democracia racial e o papel que ele tem aqui no Brasil. Jeferson diz que a harmonia e evitação de confrontação racial fazem parte da nacionalidade brasileira, e também expressam a ideologia racial brasileira. Mas, embora ele avisasse que negros brasileiras não iam querer falar sobre racismo, eu já ouvi muitas coisas sobre racismo brasileiro, e vi ainda mais com meus próprios olhos.

Aqui, a desigualdade da moradia em Rio. Na frente tem apartamentos e hotéis de Copacabana, e no morro atrás tem uma favela.



Eu vi que não tem tantos negros bem escolarizados como brancos. Conheço várias pessoas analfabetas ou quase analfabetas. Eu conheço mais pessoas negras que não têm trabalho, ou que têm trabalho de serviço, como porteiro ou empregada. Eu já visitei duas favelas. Fui numa casa que não tinha água quente, nem gelador, nem comida na mesa. A mãe, o pai e 4 crianças moram na casa de uma sala e um quarto, separados só por uma cortina. Eu já vi quem é que janta nos bons restaurantes e quem dança nos boates chiques. Eu vi quem é que bebe na rua e quem vai para pagode. É assim como Brasil parece ser segregado sem o nome de segregação.



Aqui é uma mãe e suas filhas que moram no interior, numa cidade chamada Aratuípe. Pode ver que não tem muita roupa, nem tem vidro na janela.

Alem de ter leis contra racismo no Brasil, ainda tem racismo estrutural e sutil. Como Oracy Nogueira disse, discriminação racial no Brasil está baseada na aparência e não na origem. Então, pessoas com pele escura que seriam discriminadas podem equilibrar as desvantagens da sua cor com a sua inteligência, com dinheiro, com talento, ou por ser bem-vestido. Mas, ainda é difícil para um afro-descendente subir na sociedade porque o que determine sua posição na hierarquia social é muitas vezes a família, a escolarização, e o emprego. Então, existe a idéia que para subir na sociedade brasileira, um negro tem que ter um casamento inter-racial, ou fazer parte de atividades culturais ou seja como capoeirista ou como musico.



Aqui é uma casa de família que esta faltando um parede, com tijolos segurando o telhado.

Eu acho que um outro modo de subir na sociedade vai virar popular entre os negros aqui no Brasil. Durante a campanha de Obama, eu assisti no jornal inglês, um segmento sobre os sete políticos brasileiros que adotaram o nome de Obama para as eleições. O segmento enfocou num cara em particular, Cláudio Henrique, que mora numa cidade na periferia do Rio, onde ser político é um risco da vida. Ele queria ser prefeito para ajudar os moradores de sua cidade, que são pobres e sempre esquecidos pelo governo. Inspirado por Obama, ele falou muito de esperança e mudanças, que ele era o único candidata negro e que nunca tinha prefeito negro lá na cidade dele. Infelizmente ele e todos os outros Obamas brasileiros perderam.



Aqui é um quadro de Obama no Shopping Barra.

Mas os aspirantes políticos não estão sozinhos no culto de Obama. Têm muitas pessoas negras aqui no Brasil e nos EUA também, que pensam que os problemas raciais dos EUA acabaram com a eleição dele. Como ele vem de uma família misturada, e mostrou que podia juntar pessoas de varias raças para elegê-lo, crentes no mito de democracia racial tem um novo interes nele, porque a vitória dele pode simbolizar a superação da raça, e a criação de um mundo sem racismo. Eu acho que a vitória dele mostrou que negros no mundo inteiro tem oportunidades na vida fora de ser atletas ou músicos, mas eu nunca vou dizer que o racismo terminou por causa dele. A gente ainda tem muito mais trabalho pra fazer.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Rastaaaa

O conceito da identidade tem sido discutido ultimamente em função à idéia pós-moderna que a define como: "formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente". Então, basicamente isso quer dizer que a identidade é construída socialmente e não é fixa.

Eu quero falar sobre o meu cabelo e como ele atua de um jeito político em diferentes contextos. Quero analisar as conversas, as discussões, os comentários, e as falas sobre ele em diversos espaços e sentidos. O meu cabelo serve como um exemplo concreto da idéia da identidade pós-moderna. A opinião e identidade imposta sobre mim pelas pessoas que me rodeiam muda à medida que desloco o meu corpo no espaço e no tempo. Ao longo desse trabalho, vou fazer referência às categorias de sexo, gênero, nacionalidade e classe porque essas categorias são políticos e o meu cabelo é político.

Então, a pergunta principal que fazem sobre o meu cabelo é o por que. Normalmente as pessoas vêm, se aproximam e dizem....como é que você faz isso?....como pergunta para abrir a conversa. Falo sobre o jeito de dar nós e como trabalho com a argulha de crochet, que só lavo a parte da cima, só boto xampu na cabeça e deixo a água escorrer. Falo que sim, posso entrar na água e nadar só mas que o penteado rasta se desfaz mais fácil assim, então tento não molhar. Falo que quando molho o cabelo, ele demora muito para secar, que é pesado quando está molhado. Logo as pessoas (algumas perguntam e outras não) tocam uma mecha do meo cabelo. Tocam com muita delicadeza, como se fosse quebrar no contato com a mão. Elas inspecionam o cabelo, sentindo a sua textura o rolando na mão. Aí é que fazem a pergunta....e é todo seu esse cabelo? Sim, é sim. E então, é que chegam à pergunta que realmente queriam fazer no começo....por que fez isso ào seu cabelo? As palavras que usam para traduzir a sua curiosidade sobre o meu cabelo transmite a violência atrás por trás da pergunta. É como se o cabelo fosse estuprado. É vítima que merece algum tipo de consolo e carinho depois de um processo assim. Obviamente isso varia de pessoa a pessoa, de conversa a conversa, às vezes é mais cumprida e têm vezes que é mais breve. Porém, quase sempre envolve essas idéias básicas acompanhado com o elemento violento: eu fiz algo ao meu cabelo que o meu cabelo mesmo não queria. Para todas essas perguntas sobre, como, quanto, do meu cabelo, tenho respostas claras, definidas, preparadas e praticadas. Podia ser uma gravação que coloco no momento de alguem perguntar. Faço a voz aumentar do tom, o sorriso, as palavras iguais....tudo igual, todas as vezes. Já virou uma rotina. Só que quando chegam à pergunta final, não tenho uma resposta. Sempre fico sem palavras, sorrindo como se fosse a primeira vez que alguém me perguntava. Falo....mmmm, não sei por que fiz...gostei da aparência. Fiz com uma amiga num momento especial da minha vida, é um tipo de lembrança. As pessoas ficam decepcionadas com isso. Não era o que esperavam ouvir.

O meu corpo é político. É um campo de batalha que provoca classificação e preconceito à vista. É um dos sinais visíveis à distância: não sou daqui, como luzes fosforescentes piscando para atrair ao cliente. Rastaaaaaa, rastafari woman, rasta girl, bob marley, reggae. Tudo isso são comentários que ouço na rua pelo menos uma vez por dia. Não quero abordar o tema do machismo nem tocar nas idéias das cantadas na rua aqui. Não é esse o meu propósito, não dessa vez. Aqui, agora gostaria de falar sobre o conceito da identidade e da minha visão de como é visto aqui, onde sou gringa rasta. É obvio e visto de muito longe, e é fato. Aqui, as pessoas me perguntam se sou negra, se tenho ancestrais negras e quando digo que não, falam....mas, gostaria de ser negra? E as vezes ....mas, você deve ter sido negra em uma vida anterior. Uma vez estava no mercado modelo e estava querendo comprar uma estátua de uma mulher negra....essas de madeira que vendem lá. A mulher que estava me atendendo, me fez essas duas perguntas. Eu falei que sim, gostaria de ser negra e ela com um sorriso na sua cara falou, mas gostaria de ser de que cor? Gosta do meu cor ou desse (falou apontando para uma estátua, a mais negra que tinha no seu quiosque). Falei que não sabia e que tinha gostado das duas. E ela falou....mas, com certeza você foi negra em uma vida anterior. Essa reação foi muito diferente da que recebi na minha casa aqui e em outros lugares da cidade. Aqui, quando cheguei em casa pela primeira vez, minha irmã hospedeira falou para mim, "e...você fez o cabelo assim?" falei que sim, fazia três anos. Ela me olhou com uma cara quase de nojo e disse "eu nunca faria uma coisa assim" e acabou a conversa. Também outras pessoas tem me perguntado por que fiz isso ao meu cabelo liso. Uma vez, esperando o ônibus foi engraçado porque uma mulher começou a me falar sobre a manutenção desse estilo de cabelo. Falei para ela todas as coisas que sempre falo e ela ficou calada. Depois de um tempo, ela falou com um pequeno sorriso (percebei um pouco de tristeza atrás dela) “...é engraçado porque eu faço qualquer coisa para alisar o meu cabelo e você o tem, mas faz rasta. A gente devia trocar de cabelo.” Ela deu uma risada e subiu o ônibus.

O interessante é que as reações ao meu cabelo são diferentes, a depender dos lugares do mundo onde esteja. Tem as pessoas que nem sabem o que é um cabelo rasta. Me dizem, que lindas tranças! Quanto tempo tem? (Isso aconteceu na sua maioria das vezes no México). Quando falo, hum uns três anos, suas caras mudam completamente de interesse para um tipo de choque. Segue a pergunta....e como é que você consegue lavá-lo? Falo que são rastas e que lavo a cabeça só duas vezes por mês blá blá blá. Aquelas pessoas dão um passo para trás e com um sorriso na cara falam..... “ahhh...interessante.” Nos EUA, a reação mais interessante que tenho para compartilhar foi uma vez que estava trabalhando em uma clínica veterinária e enquanto estive agarrando um cachorro, o seu dono tocou o meu cabelo e falou..... “isso!? isso...é arte.” Durante a sua visita enteira estava comentando sobre quanto adorava e apreciava o meu cabelo. Outras pessoas lá nos EUA acham que só sou uma pessoa suja. Que nunca tomo banho e que vou roubar algo das lojas deles. Na Argentina foi interessante porque lá está na moda ter cabelo rasta. Entre outras razões, os argentinos, muitas vezes, achavam que eu fosse de lá e nem comentavam nada. Porém, finalmente, sempre para os hippies de qualquer lugar do mundo, significa não que gosto, mas que adoro a música reggae e sou rastafari de coração (sempre acompanhado com essa idéia de que gosto da natureza e de fumar maconha).

Agora, com isso, cheguei à questão da identidade nacional. Representa uma parte significativa da identidade de uma pessoa, pelo menos a gente foi criada para pensar assim. Obviamente de certa maneira funciona porque uma das primeiras coisas que as pessoas me perguntam no momento de nos conhecer é... é você da onde? Sempre digo que sou americana. Mas, muitas vezes nem me sinto americana. Não sei o que quer dizer ser americana. A nacionalidade é feita de fronteiras (muitas vezes) criadas ou pelo menos designadas e manipuladas pelos seres humanos na luta por ocupar um espaço maior para "um grupo determinado" de pessoas. Mas, realmente o que quer dizer isso? Como é que alguém chega a pertencer como integrante dessa coletividade de pessoas? É só o fato de ter nascido naquela região do mundo que supostamente educa a população "nacional" de certa maneira para que se sentem unificados? Eu sou americana. Essa é uma das minhas identidades aqui em Salvador (talvez a mais importante) porque ao dizer isso, vêm certos "privilégios" e outros preconceitos. Falo com sotaque norte-americano. Caminho do jeito norte-americano. Muitas pessoas me acertam e me chamam americana na rua. Mas, tem vezes que acham que sou argentina ou francesa ou as vezes alemã ou italiana. As vezes não corrigo eles, as vezes sim. Que aspecto do meu visual dá a impressão de que sou de um dos países que não é o meu? Acho que o meu estilo do cabelo tem provocado muitas dessas decisões de classificação, com um fator em comum: meu estatus como estrangeira.

A minha identidade flutua no espaço. É algo imposto em mim por outras pessoas. Até chega mais além do que só o preconceito baseada no cabelo rasta. Por roupas que uso e a biologia que elas escondem, faz que as pessoas pensem saber que o meu gênero é feminina, que sou mulher. Só que não raspo o cabelo das pernas (e essa é uma qualidade de homem). Então, pode ser que seja lésbica. As pessoas ficam pensando....será? É interessante que posso mudar a opinião e manipular o censo das pessoas de acordo com o visual que apresento. Que sou? Todo mundo julga as pessoas pela primeira impressão que lhes dão. Me dizem então, quem sou hoje?

Imagino que essa é a minha resposta da pergunta por que deixei o meu cabelo rasta. Já a respondi. Mas só com dizer que gosto da conversa que provoca nas pessoas dá justiça à complexidade da resposta elaborada com toda essa explicação? Não posso fazer esse discurso todo em uma rotina, nem quero fazer isso. Porque entre a poeira acumulada e sal do mar, enrolado no meu cabelo ficaram milhares de impressões, e comentários para sobrar. Ela vem com explicações e preconceitos, provoca conversa e estranhamento. O meu cabelo é inspirado e grotesco, é seco e molhado, feito e deixado. É tudo e é nada. O meu cabelo é o meu cabelo e não preciso um por quê. O meu cabelo é político porquê.

sábado, 15 de novembro de 2008

A cultura transplantada e a resposta à loucura pro Obama

O sábado antipassado fui ao jazz no MAM. Se não chover, é um evento que ocurre o ano enteiro no Museu de Arte Moderna (MAM) aqui em Salvador. Uma banda local toca música após do pôr o sol (18:30) até aproximadamente as 21 horas. Acho que posso dizer que é um dos meus lugares favoritos aqui; me lembra muito o verão em Madison com a música de sexta-feira acompanhado com o ambiente e o som das ondas chocando com as rochas e os barcos lá na frente, a cerveja gelada, a fofoca voando livremente na brisa. Tudo tranqüilo, tudo lindo, tudo erudito. Quanto mais desce o sol, mais as luzes artificiais das casas distantes aparecem como refleição dos imagens delas, como estrelas do céu caidas na terra. A vista realmente é lindo; é um lugar encantador. Mesmo não sendo muito fã da música jazz, adoro ir ao jazz no MAM. É o conjunto da música, a vista, o mar, e as pessoas que criam o espectáculo.

O sábado quando que fui ao jazz, mesmo o cenário sendo familiar, o jeito das pessoas ainda não era. Conheci um rapaz de trinta e tantos anos aquele noite e quando ele soube que eu era dos EUA començou falar em voz alta, quase gritando, que seu inglês não era muito bem e que morou um tempo no meu país, no Alabama. Logo ele começou a me explicar o racismo que ele experimentou lá. Só que o racismo que ele experimentou era porque o consideravam branco. Na sua visão, os EUA são um país racista porque apesar de ele ser baiano, lá era branco. Me falou que morando lá, ele ensinou em um colegio dominado pela presença negra mas se estranhou por o sotaque e o uso da giria muito forte dos negros, coisa que ele jamais conseguiu entender nem menos encontrar jeito de expressar. Me falou muitas coisas sobre o meu país que, na verdade, eu nunca tinha experimentado. Explicou que o povo lá era racista com ele porque ele era branco e aqueles negros não gostavam dos brancos. Que era um país segregado e quando ele tentou se integrar eles recusavam. Então, falou para eles apontando para seu braço meio moreno dizendo “Não! Não! Sou Baiano! Sou negro, gosto dos negros, sou um de vocês”. Ainda assim, eles se comportavam de um jeito racista segundo ele, excluindo ele por ser branco. Aqui é negro, lá é branco e quem sabe o que aconteceria na Europa ou na Ásia ou na África. Então raça é uma questão da preferência e definição pessoal? Não pode ser tão livre porque tem limites sociais que permitem certas pessoas se classificarem como negro e outras não. Então, onde fica essa linha? O que é necessário para se classificar como uma raça ou outra? Claro, o aspeto teórico não elimina o preconceito nem os exemplos concretos e reais de discriminação baseada nas definições da raça aceitadas socialmente.

Os EUA são um país racista. A história e inumeráveis exemplos modernos podem comprovar isso. Mesmo assim o tempo todo aqui em Salvador ouço palabvras e discursos tão racistas que não sei da onde vem esse concepto de que o Brasil não tem preconceito. Ainda não tive a oportunidade de viajar muito pelo país, porém, depende do ambiente mas mesmo aqui as pessoas me confirmam que o Brasil é um paraíso racial e que só existe a livre mistura de raça e isso concorda com a imagem exportado do Brasil também. Aqui na Bahia talvez as coisas são um pouco diferentes e a questão racial chegou alcançar a um nível acadêmico tanto que em Salvador tem uma parte da UFBA dedicada somente aos estudos disso (CEAO, centro de estudos afro-orientais), coisa que pelo momento acho absolutamente necessário para visibilizar o tema.
Com o olhar sempre voltado para fora (os EUA e Europa e as vezes só o sul do país), as pessoas daqui ficam falando, discutindo, até apaixonando de um discurso e por uma esperanza que talvez não lhes é própia de uma forma direita pelo menos. Fui para o Rio de Janeiro faz duas semanas e teve um rapaz lá que fez uma escultura na areia deletrando Barack Obama e saiu em cinco jornais o próximo dia. Quando fui ao Pelourinho o dia da eleição, entre todas as pinturas coloridas típicas da Bahia, vi um retrato de Obama. No Porto da Barra, vi um rapaz com uma camisa rosa com a foto de Obama em frente e o arcoiris atras. Por cada lado que viro a minha cabeça têm arte e manifestação por o apoio a Obama. Todo isso antes das eleições para empurrar essa energia boa na atmosfera e fazer que ele ganhasse (agora ganhou, suponho que funcionou).
Nos dias posteriores das eleições presidenciais dos EUA, os jornais baianos estavam lotados de artigos, comentários, e demias sobre o novo presidente-eleito Barack Obama. Em particular, gostei de um que saiu no jornal A Tarde, entitulado assim: “Barack Obama – o sonho da Bahia” por João Jorge Rodrigues (http://www.atarde.com.br/jornalatarde/opiniao/noticia.jsf?id=1003813). Nesse artigo não muito cumprido, um jornalista baiano comentou sobre a reação e esperança do povo brasileiro enquanto às noticias dos EUA terem eleito um presidente negro como o novo poder. Abriu o artigo dizendo: “A eleição americano foi capaz de revelar um fenômeno social modderno” e seguiu desse jeito até usar uma palavra que acho muito adequado aqui Obamania. Realmente as pessoas ficaram loucas por saber que os americanos eram capaceis de escolher um homem negro como presidente e até ficaram sorprendidas quando vieram a reação positiva e emotiva de muitas pessoas brancas, asiaticas, latinas retratados na tevê chorando com emoção por saber que Obama ia lhes representar pelo menos por os próximos quatro anos. Diz o artigo que com a eleição de Obama “nos inspira a lutar mais para realizar o sonho dos meninos e meninas negros esquecidos na periferia da cidade-mãe do Brasil”. Tudo transplantado, tudo olhar da fora analizando o Brasil, dizendo o que deve fazer e que deve arreglar, fazendo modelo para o país seguir, até o racismo nesse país. Na minha aula de Historia Cultura Brasileira, falamos o semestre enteiro da cultura transplantada da Europa antigamente e agora mais com os EUA e como as vezes (muitas vezes) não deu (da) certo aqui mesmo por serem transplantados numa sociedade que não sofreu a mesma historia da Europa. Antes nesse blog, analacei a cultura brasiliera de acordo com o olhar queer que aprendi nos EUA. Agora gostaria de escutar uma teoria de raça que vem daqui. Quero ouvir e ler textos produzidos pelas pessoas que são daqui para não seguir a vissão transplantada que tanto foi exposto o Brasil.
Por mais que gosto que as pessoas fiquem felizes por causa dos resultados electoriais do meu país (o que me faz sentir orgulhosa de pertencer à comunidade que fez possivel essa mudança) ainda é muito presente a idéia de transplantação da cultura. Quando vou ao jazz no MAM, me sinto transportada, transplantada ao mundo da fora, a minha casa. Mas o momento que eu pisar na rua lá acima, tiro o meu spray pimenta da minha bolsa e caminho a casa, olhando sempre atras de mim. O que quer dizer isso? Estou já cansada do meu discurso. Quero que uma pessoa baiana me diz.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O desdén de ser politicamente correto

Poderia recorrer de novo todo o que já tinha escrito sobre categorias e como desde criança a gente aprendeu de acordo delas. Agora, tanto faz se você estiver disposto a viver ou não de acordo com essas categorias. O ponto é que existem e a gente mora dentro da sociedade que funciona assim. Então, tudo bem...até chegar às "categorias" das pessoas. Ao mesmo tempo de que a gente foi criada para reconhecer certas categorias e padrões normalizados na sociedade, não é aceito dizé-as com referência às pessoas, pelo menos não nos EUA (refleitado um pouco na postagem anterior de Lisa sobre peso). Era impregnado em nós, com pouca sutileza, não categorizar certas "coisas", o seja, tipificar as pessoas. Fazer isso é considerada má educada e no caso (talvez só americana) discriminatória. Tudo isso até chegar à palavra terrivel que nenhuma sociedade quer admitir que exista nela; implica a categorização com base na cor: o racismo. Então, categoirzar é mais do que aceitado, é reenforçado socialmente só que não é aceito em certas circunstâncias. Enquanto na escola e fora fomos socializados para reconhecer e viver de acordo com categorias hierarquizada da raça e de gênero entre outros, não era "educado” categorizar e generalizar "tipos" de pessoas com base na raça nem na etnia, pelo menos não em voz alta. Eu nasci no meio da década dos anos oitenta quando a televisão americana começava ter personagens e clamor da falta de personagiens principais "negros" ou "latinos". Com certeza essa mentalidade de luta influiu em minha formação e a de todas as pessoas de minha geração.

Talvez isso faça sentido no contexto de um país com uma história tão forte de imigração como os EUA, mais existem outros países na América mesmo (a Argentina, o Brasil por exemplo) que partilham dessa história em comum. Então, qual é a diferença? É que as pessoas dos EUA ficam com medo de ofender as pessoas e é só uma maneira de esconder o racismo inerente nas pessoas ou realmente é válido? Já ouvi falar muito aqui com um tom desdénhado quase chegando à raiva por causa das pessoas ficarem com esse "medo" de falar "a verdade". Elas se defendem dizendo que são honestas e direitas e é uma característica “inerente” à identidade nacional brasileira. Mas, não sei se acredito nisso. Todo lugar que tenho visitado tem esse mesmo desdén pela atitude "americana" de sensibilizar e esconder o que segundo os demais, a gente sabe e está pensando só que não dizendo. Muitas vezes escuto comentários de pessoas na área de "ai ai, mais dizer isso é politicamente correto" acompanhado com o movimento suspeito dos olhos e o nariz feito em arrugas. Praticamente é a pior coisa que alguém pode fazer: dizer ou produzir algo que é considerado politicamente correto. Sempre voltando ao contexto histórico, talvez possa fazer sentido o porquê da mentalidade politicamente correta do povo americano. Mas só entender a base histórica de porque surgiu não significa que a gente tem que aceitar essa ideologia nem viver de acordo com ela. Não é? Mas, realmente será que é uma diferença de opinião só? Uma simples perspectiva ou olhar distinto? Ou será que estou sofrendo do que chamam de "choque cultural" agora, quatro meses depois de ter chegado ao Brasil? Uma amiga me falou que devia ser uma questão da adaptação cultural assim. Deve ser uma diferença desse tipo mas não sei se acredito nisso. Já tenho escutado e visto muitas coisas aqui que me deixam tão surprendidas e ofendidas. Por exemplo, vi uma cartaz anunciando a novela “negócio da china” com todos os personagens (oito pessoas pelo menos) brasileiros fazendo “olhos chineses”, o seja, com os dedos dos mãos estirando os olhos para que ficarem mais finos e menos redondos. Ou cada vez que alguém me da uma descrição de uma pessoa, se tem uma mínima possibilidade que os demais lhe reconhecem como gay, é a primeira característica da pessoa dada: você sabe....ele é alto, loiro, aaa ele é gay! Sabia? Como se com esse comentário fosse a única característica importante e marcante da pessoa. Ou, também, quando as pessoas me respondendo depois de eu contar que fui assaltada duas vezes: a sim, você tem que ter cuidado nesta cidade. Têm muitos negãos que te podem roubar. Como se tinha incluido o cor da pele das pessoas que me assaltaram como fator principal do evento. Sempre depois das pessoas falarem assim, fico calada, com uma sorrisa falsa na minha cara, fixada numa transe sem palavra alguma para dizer. O que é que eles estão esperando de mim? Se é uma resposta verdadeira ou “honesta” que querem, acho que não vão gostar mais de mim. Mas estou aqui para aprender de uma outra cultura, então devo respeitar isso né?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Obama, O Cara


O dia chegou! Hoje milhões de americanos vão votar para o novo presidente dos EUA. Como eu já mandei meu voto (para Obama, claro) pelo correio e está quase garantido que ele vai ganhar, eu já estou pronta para fazer uma festa hoje a noite.

Antigamente eu pensava que seria melhor estar nos EUA para celebrar esse grande momento da história do país, mas como eu descobri recentemente, eu não vou brindar à vitoria de Obama sozinha. Há muitos brasileiros que estão torcendo para ele também, inclusive meu namorado, Alan, que o admira muito. O texto seguinte vem de uma entrevista que eu fiz com Alan ontem, na véspera da eleição.

Você viu os quadros de Obama no Shopping Barra e a propaganda dele na rua?

Eu vi. Vi a foto de Obama na rua em que eu passava. Eu vi Obama em vários lugares. Eu tenho uma camisa de Obama que ganhei como presente de meu amigo que mora nos EUA. E vesti porque ele é o cara. Quero que Obama faça tudo que Bush só estragou. Aqui no Brasil, tem muitas pessoas que amam ele. Todo mundo tá torcendo para ele. Cada passo que ele dá pra fazer palestra, a gente tá assistindo.

O que você pensa sobre Obama?

Eu sou uma pessoa brasileira. Sou negro, entendeu? E espero que Obama ganhe porque vai ser o primeiro negro ser presidente na história dos EUA. Tomara que ganhe porque vai ser bom para nós que têm pele negra e também vai ser bom para o país dos EUA que ele vai direitar tudo. Porque Bush só entrou pra fazer coisas que não era pra fazer. Bush tem uma mente de criança. E Obama, não. Ele vai ser o cara. Vai ser o homem dos EUA. E o outro, qual é o nome dele?

McCain.

McCain é somente um…Não sou racista, não. Eu sou eu, negro…Mas, McCain vai ser outro branco como Bush, que vai querer fazer guerra também como Bush fez…Por que a crise está agora nos EUA? Por causa de Bush porque ele não pensou antes como entrou na presidência. Se ele pensasse, não fazia nada disso.

O que é que você já ouviu falado sobre Obama na TV e no rádio?


Ouvi que ele tá na frente de McCain e que todo mundo tá torcendo pra ele. Nós brasileiros negros, a gente que trabalha nos lugares mais fracos do país—como garçom, como varredor da rua—a gente precisa superar mais. A gente tá rezando pra Obama ganhar porque, para nós, ele vai ser o exemplo da nossa vida como Nelson Mandela, que combateu a discriminação na África do Sul. A gente aqui tá esperando a oportunidade de ser alguém na vida, porque a gente ainda não tem toda nossa liberdade. Então, eu acho assim, não é só pra mim, que sou negro, mas para todas as pessoas que vivem no planeta, que têm pele negra, vai ser feliz que ele ganhar. Um presidente negro vai ver como as pessoas negras estão sofrendo. Porque agora não têm um presidente que vai lá e cuide das pessoas. Teve agora a situação em Nova Orleans—a Katarina—e Bush nem ligou direito para lá, que lá só tem pessoas negras.

Mas tem pessoas pobres e brancos também.


Eu vi na televisão. Eu sou assistador brasileiro e eu vi. Então fosse que Obama estivesse no lugar, como negro ele já tava direitando tudo lá.

Se Obama for eleito o que é que vai acontecer?

Eu espero que Obama seja um cara com carácter, que ajude as pessoas. Também tem que cumprir as coisas que ele falou antes da eleição. Tem que juntar o negro com o branco. Têm que ser a mesma coisa, que a gente é humano. A gente só tem uma pele só. Você tem uma orelha. Eu tenho um nariz…Mas eu espero que ele ganhe não só porque eu sou negro, é porque ele tem inteligência na cabeça. Vai ser a evolução do mundo. Obama vai ser o presidente que vai iluminar o mundo. Ele vai ser o melhor cara que vai ter. Bill Clinton é bom. George Bush é uma merda. Se ele fosse um presidente bom, não fazia as coisas que fez. Eu espero que Obama entre e tire a guerra do Iraque, e traga as tropas para os EUA porque lá é o país deles [os iraqis] não é o país dos EUA…Mas, Obama também pode ser um negro que não pode fazer nada. Posso falar e fazer nada. Não falei que Obama é o rei. Eu só espero que ele seja um cara que respeite todo mundo—branco, negro, azul, vermelho. Não importa a cor.

Essa é a primeira vez que os brasileiros torceram tanto para um presidente de fora?


Sim, é a primeira vez. É porque ele é negro. Não é racismo, não. É porque ele é o primeiro negro dos EUA...Eu quero que Obama ganhe pra tirar toda essa discriminação do Brasil. O branco correndo é barão; o negro correndo é ladrão. Quando você vai na discoteca que só tem brancos, aquele [funcionário] branco vai dar atenção a você, mas vai dar atenção mais ao branco e você fica no lado. Eu não sou racista. Somente tou falando a realidade.

Você acha que, um dia, o Brasil vai ter um presidente negro?


A gente espera que um dia vai ter um negro para resolver nossos problemas. Espero que um dia a gente esteja no bar ou no shopping, e um branco sorria pra gente, ou que os brancos tratem bem e respeitem as empregadas negras. Eu quero tudo isso pra minha vida—ter um presidente maravilhoso como Obama. Eu creio que ele vai ganhar. E creio que, nas próximas eleições, um negro vai ganhar de novo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A camuflagem da aparência

Eu sou reservada, e como meu namorado e os amigos dele gostam de dizer, eu fico na minha, quietinha mas sempre ligada à conversa. Como eu estou observando, baianos são mais para fora, mais tagarelas. E eu não gosto de rotular, mas nunca encontrei um baiano tímido. Deve ser uma espécie rara. Na verdade, não sei ainda, qual é que me faz mais estrangeira aqui em Salvador, ou minha nacionalidade ou meu jeito de ficar calada. Sendo uma “nada falante,” eu não divulgo minha identidade estadunidense muito através do meu sotaque. Sem falar, eu fico escondida na camuflagem da minha pele. Bronzeada e vestida de roupa brasileira, eu viro de gringa afro-americana a negona rasta, uma fantasia que possui suas próprias rotulações.

Embora não seja muito comum ver uma menina baiana com cabelo rasta, já vi duas, então eu vou dizer que meu cabelo ainda dá para esconder minha identidade. Como eu estou morando na Barra, estou observando que turistas chamam muita atenção de pessoas querendo dinheiro. “Olá, meu amigo” ou “Hello, my friend” são frases bem ouvidas nas ruas de Barra, particularmente perto da praia onde a palavra “amigo” vira a significar “estrangeiro que tem dinheiro, ou algo mais que eu estou querendo.” Por ter me escondido em silêncio, eu ainda conheço pessoas na Barra que me chamam de “Americana,” mas ainda posso dizer que eu nunca fui roubada por ninguém. Eu acho que isso é porque eu tenho a aparência de alguém que não teria dinheiro se fosse brasileira. Primeiro, sou negra. E segundo, meu cabelo não é “bem-cuidado” nos olhares de todos, e por isso pode ser igual aos cabelos dos hippies que vendem brincos na praia, ou dos capoeiristas, que, até recentemente, não foram tão respeitados pela sociedade.

Nos pensamentos das pessoas preconceituosas eu não pareço como eu tenho um trabalho certo ou que eu possuo nenhuma coisa de valor. (Já encontrei pessoas que não acreditaram que eu poderia ter um cartão de credito no meu nome.) Poderia ser que eu gastei tudo comprando maconha e álbuns de Lucky Dube? Mas interessantemente, ninguém nunca me ofereceu drogas na rua. Na verdade, a maioridade das pessoas que me aproximam só querem saber se eu posso fazer o cabelo deles, ou como foi que eu fiz o meu. É a mesma idéia no Pelourinho. Nenhum vendedor agressivo tentou me dar um “presente” pago de uma fita de Bom Fim, que, amarrada no pulso, é uma marca de turista ainda que seja usada pelos brasileiros também. Embora seja baseada em preconceitos, minha camuflagem de ser uma rasta brasileira me ajuda evitar situações chatas com pessoas interesseiras, ou seja, pessoas que sobrevivem pelas bolsas dos gringos.

Mas ao entrar no meu apartamento, tudo muda. Os únicos negros que eu vejo no meu edifício são os porteiros e as empregadas. Tenho vizinhos que têm medo de mim até eles correrem ao elevador para não ter que dividir comigo. (Isso aconteceu só alguns dias atrás!) Tenho outros que não me cumprimentam por pensar que eu sou empregada. Tenho outros que fecham o portão atrás deles, sabendo que eu estou chegando para entrar. Tenho outros que ficam olhando para mim, quando eu encontro com meu namorado (quem também é negro) no portão. Eles ficam olhando como nós estejamos esperando alguém sair para poder roubá-lo. Demoraria muito, se eu tentasse de lembrar cada momento de desconforto e discriminação por causa da minha aparência. Mas nesses momentos eu não fico muito chateada porque eu gosto mais de ver as caras de surpresa quando eu pego o elevador social (em vez do outro de serviço) ou quando eu falo inglês no meu celular. Eu não tenho que provar nada para eles. Na verdade, eu só preferia mostrar para eles que seus preconceitos são errados, que eu trabalhei e estudei muito para chegar aqui no Brasil e que eu não preciso de roubar ninguém.

O Brasil é Queer

A raça, a política, e a sexualidade são temas bem complexos. Mais do qualquer outro lugar que visitei, observo aqui que o Brasil não se deixa levar à hegemonia. Por todas as partes vejo a expressão queer que faz justaposição desses três temas. Desde que eu cheguei a Salvador, ou pensando bem, pode ser até antes de eu tenha vindo para aqui que comecei a ter uma noção da cultura queer presente no cotidiano brasileiro. Não é que me considero experta no tema nem nada ao estilo. Na verdade, tudo começou pouco tempo atrás com a leitura de um artigo sobre a raça no Brasil. Nesse artigo, segundo o censo do 1980, contaram 136 definições diferentes da raça. Após ter lido esse reportagem, despertou uma curiosidade sobre o tema, um fome em mim para explorá-lo mais. Agora, depois de ter quatro meses de experiencia aqui, cada vez mais acredito que minha primeira impressão está se tornando válida enquanto difícil é de explicar e entender o Brasil. Só posso dizer que observo que o Brasil põe em prática o que os EUA produzem na teoria. O Brasil é queer e é assim sem presicar de esse rótulo.

Sem ir longe demais, queria só propor a idéia de que a sociedade brasileira tem aspectos inerentes que refletem as propostas da teoria queer. Como vim para estudar na Bahia, a primeira coisa que estudei no sentido acadêmico foi a questão das raças. Na Bahia, a raça não é classificável em categorias fixas de branco e preto. Além da raça, a política também tem cara de queer—agora literal e explictamente com a eleição da Leo Cret. Também, no sentido geral, existem partidos políticos suficientes para cada cidadão (quase) ser representado por seu própio partido. Nada é fixo; nem os partidos, nem os políticos, nem as pessoas que votam. Tudo está disposto à mudança constante. Os candidatos trocam de partido emquanto for preciso e o público não se proclama membro de nenhum partido político. É um processo muito individual, baseado nas propostas e discurso do candidato mesmo. A sexaulidade, especialmente exposta à vista comum na época do Carnaval, não é atada a definição fixa. Tenho ouvido muito (porque ainda não o conheço) que no carnaval as pessoas se comportam diferente, que as fronteiras de relações interpersoais ficam problematizados pelo menos por essa semana no final de fevereiro. As pessoas saem nas ruas e se sentem livres para se vestir e se compor como quiserem—ou seja, a sociedade lhes dá a oportunidade de se expressar com uma fluidez sem terem conseqüencias sociais prejudicias. Na superfície, não há barreiras de sexualidades nem definições de diferentes gênero nem de classe nem raça e tudo isso é político.

Mas...será que posso fazer a conexão entre essas observações como manifestaççoes da teoria queer? De acordo com as categorias predeterminantes, eu sou estadunidense, sou de classe média e educada, eu sou branca. Nesse mundo globalizado, na prática nada é tão simples. Porém, realmente posso vir e dizer que o Brasil é queer sem impor o meu olhar "dominante" sobre a cultura brasileira que só estou começando a conhecer? Não vale dizer que só é uma opinião qualquer, porque tudo vem de perspectivas que participam de relações de poder. Estou ejercendo uma nova forma de colonização?

Na verdade, estou passando vergonha publicar esse texto no internet, porque além de ser um tema que penso muito, realmente se pode reduzir isso simplesmente ao producto do sistema educativa norteamericana. Então, é discurso nada mais ou o quê é?