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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sambando no Rio

Como primeira coisa tenho de dizer que sou desafinada e não sinto o ritmo, ou seja, para dizer a verdade, não sei nem cantar nem dançar.
Porém, como diz João Gilberto que "os desafinados também têm um coração", me emocionei muito assistindo ao ensaio técnico da escola de samba Portela no Rio.
Quando o guia me deixou sozinha às nove e meia da noite no grande espaço da escola, cheio de luzes e de gente, me senti perdida e pensei:"Eu que faço aqui?"
No começo achei que seria uma boa tática fingir de cantar, abrindo os lábios sem emitir som e mexer um pouco o corpo de maneira confusa mas discreta, sem atrair a atenção, mas pronto percebi que não precisava fingir nada, porque havia muita gente que ficava ao lado da pista só olhando.
Me senti muito aliviada, ainda mais por ver o que acontecia no salão, onde as pessoas que faziam o ensaio não tinham muita habilidade.
Era o grupo das mulheres, nem lindas, nem jovens, nem peladas: simples mulheres do bairro (Mangueira), algunas velhinhas ( uma tão velha que eu estava seriamente preocupada pela sua chance de chegar com vida até o final do ensaio ) e na maioria dos casos totalmente despreocupadas com o aspecto artístico e coreográfico do samba.
Era uma total anarquia: cadauna dançava com seus passos e suas figuras.
Algunas viravam de esquerda a direita e outras de direita a esquerda - ao mesmo tempo, claro-
uma levantava os braços, agitando a cabeça, en quanto a companheira ao lado guardava uma atitude de aristocrática compostura.
Inclusive as duas garotinhas que dançavam no tablado exibiam uma falta total de coordenação.
A coisa mais engraçada era que os intrutores não faziam nanda para disciplinar o caos: iam entre elas com os passinhoas do samba, cantando, sorrindo e senhalando a aprovação com a cabeça.
Outra coisa inacreditável é que todo o mundo no salão nunca parou de cantar a mesma canção por duas horas seguidas.
Viva Portela...Portela, você é a mais bela...
Naturalmente, cadaum do seu jeito.
Os intrutores recomendavam: mais alto, mais forte, pronuncia mais clara das palavras, e todos continuavam como antes.
E não agem assim por no ter em conta o evento, porque se vê que todos seguem com muita atenção e seriedade, inclusive as pessoas que ficam ao lado da pista de baile.
Ninguem está brincando!
Será que eles sabem que o samba é liberdade, livre espressão da pessoa que encontra a armonia no grupo?
Porque eu sei que nos dias do Carnaval acontece o milagre e a escola desfila, linda, organizada, uma verdadeira maravilha!
Será que o samba é como uma metáfora do Brasil, onde a partir do caos e da anarquia se chega à armonia e ao bem sucedido?
Pois não?
Paola

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A questão de democracia racial no Brasil

O seguinte é um texto baseado em uma apresentação que eu fiz para o final da turma:


A questão de democracia racial no Brasil

O que é democracia racial?

A teoria de democracia racial diz que, em comparação aos EUA, nos países latino-americanos inclusive o Brasil, não existe o racismo intenso que caracterizou os relacionamentos raciais norte-americanos nos séculos XIX e XX.

A teoria esta baseada nesses três fatos:

1) Que, nos países latino-americanos, depois da abolição de escravidão, não existiam leis de segregação que permitiam discriminação racial.

2) Que, agora, não existe tanta violência racial (linchamentos e outros crimes de ódio) feita por grupos racistas como o KKK.

3) Que a miscigenação racial ocorreu muito na historia dos países latino-americanos

A teoria também diz que qualquer desigualdade racial que encontraria em América Latina existiria somente porque os recursos (como moradia boa, empregos com rendas agradáveis, e escolarização) antigamente eram negados por razoes racistas e não porque ainda existe racismo nesses países.



Aqui temos, Frank Tannenbaum, um sociólogo Americano que escreveu um livro, Escravo e Cidadão, que compara racismo nos EUA com racismo em América Latina. O livro, que foi publicado em 1947, sugere que existe democracia racial no Brasil. Eu li o livro no ano passado, e a maioria de meu entendimento de democracia racial vem dessa leitura.



Seguindo os teoristas da democracia racial, a igualdade racial existe em América Latina (e não nos EUA) por causa desses três fatores:

1) Como os colonistas ibéricos (que chegaram em América Latina) já tinham experimentado o governo dos mouros que durou quase 800 anos, não tinham aquele pensamento que pessoas com pele escura (quer dizer, os indígenas e os africanos) eram sub-humanos como pensaram os colonistas europeus (que chegaram em América do Norte.)

2) Ao contrario da doutrina puritana de América do Norte, catolicismo considerava os indígenas e os africanos como pessoas que tinham almas, então não tinham problemas interagindo pessoalmente com eles.

3) Os primeiros colonistas de América Latina não chegaram com suas famílias, como aconteceu em América do Norte e por causa disso eles tinham mais relacionamentos sexuais e emocionais com mulheres africanas e indígenas, o resultado sendo que ainda não se encontra discriminação racial por causa da miscigenação

Embora a idéia de democracia racial já esteja considerada um mito pelos sociólogos, ainda existem pessoas que chegam aqui no Brasil com a expectativa de achar um paraíso racial. Muitas vezes são afro-americanos.

Dois anos atrás eu li um artigo publicado em Essence Magazine, uma revista afro-americana, que enfocou nos homens afro-americanos que viajam cada ano para o Brasil. O artigo disse que todos os homens estavam largando mulheres afro-americanas para ficar com mulheres brasileiras, que eram prostitutas. Embora turismo sexual seja problemático aqui no Brasil, o artigo não tratou bem desse assunto e em vez disso virou uma reclamação xenofobica e ignorante. Eu pensei que o artigo era uma bobagem, mas tinha algumas respostas na parte de entrevista que eram mais interessantes. Os homens falaram que gostavam do Brasil mais do que os EUA porque no Brasil eles se sentem mais respeitados, pelas mulheres, pelos donos das lojas, e pelos garçons.

Na verdade, eu acho que eles estavam sentindo a valorização de ser americano e não de ser negro. Por que? Porque têm dinheiro. Geralmente profissionais da classe-media nos EUA, aqui eles são ricos. Se eles chegassem aqui e parecessem obviamente turistas com roupa americana, e falando inglês não teria como ficar ignorados nas lojas e restaurantes, ou considerados como ladrões ou traficantes. Por não ter sofrido discriminação parecida com ela que sofrem do dia a dia nos EUA, e também por ter visto (particularmente aqui em Salvador, que é um destino popular) a valorização da cultura negra, eles pensam que não existe problemas raciais no Brasil.



Aqui temos Ilê Aiyê, um bloco afro que tem muitas músicas contra racismo, sobre a valorização do negro no Brasil. O grupo é muito popular entre turistas.

Embora seja claro que todos os afro-americanos não pensam assim, eu queria falar do artigo só para mostrar que a idéia de democracia racial não é completamente antiquada.

Antes de chegar aqui, eu recebi um texto escrito por Professor Jefferson sobre ser negro no Brasil que ele escreveu para os estudantes do CIEE. No artigo ele tratou do mito de democracia racial e o papel que ele tem aqui no Brasil. Jeferson diz que a harmonia e evitação de confrontação racial fazem parte da nacionalidade brasileira, e também expressam a ideologia racial brasileira. Mas, embora ele avisasse que negros brasileiras não iam querer falar sobre racismo, eu já ouvi muitas coisas sobre racismo brasileiro, e vi ainda mais com meus próprios olhos.

Aqui, a desigualdade da moradia em Rio. Na frente tem apartamentos e hotéis de Copacabana, e no morro atrás tem uma favela.



Eu vi que não tem tantos negros bem escolarizados como brancos. Conheço várias pessoas analfabetas ou quase analfabetas. Eu conheço mais pessoas negras que não têm trabalho, ou que têm trabalho de serviço, como porteiro ou empregada. Eu já visitei duas favelas. Fui numa casa que não tinha água quente, nem gelador, nem comida na mesa. A mãe, o pai e 4 crianças moram na casa de uma sala e um quarto, separados só por uma cortina. Eu já vi quem é que janta nos bons restaurantes e quem dança nos boates chiques. Eu vi quem é que bebe na rua e quem vai para pagode. É assim como Brasil parece ser segregado sem o nome de segregação.



Aqui é uma mãe e suas filhas que moram no interior, numa cidade chamada Aratuípe. Pode ver que não tem muita roupa, nem tem vidro na janela.

Alem de ter leis contra racismo no Brasil, ainda tem racismo estrutural e sutil. Como Oracy Nogueira disse, discriminação racial no Brasil está baseada na aparência e não na origem. Então, pessoas com pele escura que seriam discriminadas podem equilibrar as desvantagens da sua cor com a sua inteligência, com dinheiro, com talento, ou por ser bem-vestido. Mas, ainda é difícil para um afro-descendente subir na sociedade porque o que determine sua posição na hierarquia social é muitas vezes a família, a escolarização, e o emprego. Então, existe a idéia que para subir na sociedade brasileira, um negro tem que ter um casamento inter-racial, ou fazer parte de atividades culturais ou seja como capoeirista ou como musico.



Aqui é uma casa de família que esta faltando um parede, com tijolos segurando o telhado.

Eu acho que um outro modo de subir na sociedade vai virar popular entre os negros aqui no Brasil. Durante a campanha de Obama, eu assisti no jornal inglês, um segmento sobre os sete políticos brasileiros que adotaram o nome de Obama para as eleições. O segmento enfocou num cara em particular, Cláudio Henrique, que mora numa cidade na periferia do Rio, onde ser político é um risco da vida. Ele queria ser prefeito para ajudar os moradores de sua cidade, que são pobres e sempre esquecidos pelo governo. Inspirado por Obama, ele falou muito de esperança e mudanças, que ele era o único candidata negro e que nunca tinha prefeito negro lá na cidade dele. Infelizmente ele e todos os outros Obamas brasileiros perderam.



Aqui é um quadro de Obama no Shopping Barra.

Mas os aspirantes políticos não estão sozinhos no culto de Obama. Têm muitas pessoas negras aqui no Brasil e nos EUA também, que pensam que os problemas raciais dos EUA acabaram com a eleição dele. Como ele vem de uma família misturada, e mostrou que podia juntar pessoas de varias raças para elegê-lo, crentes no mito de democracia racial tem um novo interes nele, porque a vitória dele pode simbolizar a superação da raça, e a criação de um mundo sem racismo. Eu acho que a vitória dele mostrou que negros no mundo inteiro tem oportunidades na vida fora de ser atletas ou músicos, mas eu nunca vou dizer que o racismo terminou por causa dele. A gente ainda tem muito mais trabalho pra fazer.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Rastaaaa

O conceito da identidade tem sido discutido ultimamente em função à idéia pós-moderna que a define como: "formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente". Então, basicamente isso quer dizer que a identidade é construída socialmente e não é fixa.

Eu quero falar sobre o meu cabelo e como ele atua de um jeito político em diferentes contextos. Quero analisar as conversas, as discussões, os comentários, e as falas sobre ele em diversos espaços e sentidos. O meu cabelo serve como um exemplo concreto da idéia da identidade pós-moderna. A opinião e identidade imposta sobre mim pelas pessoas que me rodeiam muda à medida que desloco o meu corpo no espaço e no tempo. Ao longo desse trabalho, vou fazer referência às categorias de sexo, gênero, nacionalidade e classe porque essas categorias são políticos e o meu cabelo é político.

Então, a pergunta principal que fazem sobre o meu cabelo é o por que. Normalmente as pessoas vêm, se aproximam e dizem....como é que você faz isso?....como pergunta para abrir a conversa. Falo sobre o jeito de dar nós e como trabalho com a argulha de crochet, que só lavo a parte da cima, só boto xampu na cabeça e deixo a água escorrer. Falo que sim, posso entrar na água e nadar só mas que o penteado rasta se desfaz mais fácil assim, então tento não molhar. Falo que quando molho o cabelo, ele demora muito para secar, que é pesado quando está molhado. Logo as pessoas (algumas perguntam e outras não) tocam uma mecha do meo cabelo. Tocam com muita delicadeza, como se fosse quebrar no contato com a mão. Elas inspecionam o cabelo, sentindo a sua textura o rolando na mão. Aí é que fazem a pergunta....e é todo seu esse cabelo? Sim, é sim. E então, é que chegam à pergunta que realmente queriam fazer no começo....por que fez isso ào seu cabelo? As palavras que usam para traduzir a sua curiosidade sobre o meu cabelo transmite a violência atrás por trás da pergunta. É como se o cabelo fosse estuprado. É vítima que merece algum tipo de consolo e carinho depois de um processo assim. Obviamente isso varia de pessoa a pessoa, de conversa a conversa, às vezes é mais cumprida e têm vezes que é mais breve. Porém, quase sempre envolve essas idéias básicas acompanhado com o elemento violento: eu fiz algo ao meu cabelo que o meu cabelo mesmo não queria. Para todas essas perguntas sobre, como, quanto, do meu cabelo, tenho respostas claras, definidas, preparadas e praticadas. Podia ser uma gravação que coloco no momento de alguem perguntar. Faço a voz aumentar do tom, o sorriso, as palavras iguais....tudo igual, todas as vezes. Já virou uma rotina. Só que quando chegam à pergunta final, não tenho uma resposta. Sempre fico sem palavras, sorrindo como se fosse a primeira vez que alguém me perguntava. Falo....mmmm, não sei por que fiz...gostei da aparência. Fiz com uma amiga num momento especial da minha vida, é um tipo de lembrança. As pessoas ficam decepcionadas com isso. Não era o que esperavam ouvir.

O meu corpo é político. É um campo de batalha que provoca classificação e preconceito à vista. É um dos sinais visíveis à distância: não sou daqui, como luzes fosforescentes piscando para atrair ao cliente. Rastaaaaaa, rastafari woman, rasta girl, bob marley, reggae. Tudo isso são comentários que ouço na rua pelo menos uma vez por dia. Não quero abordar o tema do machismo nem tocar nas idéias das cantadas na rua aqui. Não é esse o meu propósito, não dessa vez. Aqui, agora gostaria de falar sobre o conceito da identidade e da minha visão de como é visto aqui, onde sou gringa rasta. É obvio e visto de muito longe, e é fato. Aqui, as pessoas me perguntam se sou negra, se tenho ancestrais negras e quando digo que não, falam....mas, gostaria de ser negra? E as vezes ....mas, você deve ter sido negra em uma vida anterior. Uma vez estava no mercado modelo e estava querendo comprar uma estátua de uma mulher negra....essas de madeira que vendem lá. A mulher que estava me atendendo, me fez essas duas perguntas. Eu falei que sim, gostaria de ser negra e ela com um sorriso na sua cara falou, mas gostaria de ser de que cor? Gosta do meu cor ou desse (falou apontando para uma estátua, a mais negra que tinha no seu quiosque). Falei que não sabia e que tinha gostado das duas. E ela falou....mas, com certeza você foi negra em uma vida anterior. Essa reação foi muito diferente da que recebi na minha casa aqui e em outros lugares da cidade. Aqui, quando cheguei em casa pela primeira vez, minha irmã hospedeira falou para mim, "e...você fez o cabelo assim?" falei que sim, fazia três anos. Ela me olhou com uma cara quase de nojo e disse "eu nunca faria uma coisa assim" e acabou a conversa. Também outras pessoas tem me perguntado por que fiz isso ao meu cabelo liso. Uma vez, esperando o ônibus foi engraçado porque uma mulher começou a me falar sobre a manutenção desse estilo de cabelo. Falei para ela todas as coisas que sempre falo e ela ficou calada. Depois de um tempo, ela falou com um pequeno sorriso (percebei um pouco de tristeza atrás dela) “...é engraçado porque eu faço qualquer coisa para alisar o meu cabelo e você o tem, mas faz rasta. A gente devia trocar de cabelo.” Ela deu uma risada e subiu o ônibus.

O interessante é que as reações ao meu cabelo são diferentes, a depender dos lugares do mundo onde esteja. Tem as pessoas que nem sabem o que é um cabelo rasta. Me dizem, que lindas tranças! Quanto tempo tem? (Isso aconteceu na sua maioria das vezes no México). Quando falo, hum uns três anos, suas caras mudam completamente de interesse para um tipo de choque. Segue a pergunta....e como é que você consegue lavá-lo? Falo que são rastas e que lavo a cabeça só duas vezes por mês blá blá blá. Aquelas pessoas dão um passo para trás e com um sorriso na cara falam..... “ahhh...interessante.” Nos EUA, a reação mais interessante que tenho para compartilhar foi uma vez que estava trabalhando em uma clínica veterinária e enquanto estive agarrando um cachorro, o seu dono tocou o meu cabelo e falou..... “isso!? isso...é arte.” Durante a sua visita enteira estava comentando sobre quanto adorava e apreciava o meu cabelo. Outras pessoas lá nos EUA acham que só sou uma pessoa suja. Que nunca tomo banho e que vou roubar algo das lojas deles. Na Argentina foi interessante porque lá está na moda ter cabelo rasta. Entre outras razões, os argentinos, muitas vezes, achavam que eu fosse de lá e nem comentavam nada. Porém, finalmente, sempre para os hippies de qualquer lugar do mundo, significa não que gosto, mas que adoro a música reggae e sou rastafari de coração (sempre acompanhado com essa idéia de que gosto da natureza e de fumar maconha).

Agora, com isso, cheguei à questão da identidade nacional. Representa uma parte significativa da identidade de uma pessoa, pelo menos a gente foi criada para pensar assim. Obviamente de certa maneira funciona porque uma das primeiras coisas que as pessoas me perguntam no momento de nos conhecer é... é você da onde? Sempre digo que sou americana. Mas, muitas vezes nem me sinto americana. Não sei o que quer dizer ser americana. A nacionalidade é feita de fronteiras (muitas vezes) criadas ou pelo menos designadas e manipuladas pelos seres humanos na luta por ocupar um espaço maior para "um grupo determinado" de pessoas. Mas, realmente o que quer dizer isso? Como é que alguém chega a pertencer como integrante dessa coletividade de pessoas? É só o fato de ter nascido naquela região do mundo que supostamente educa a população "nacional" de certa maneira para que se sentem unificados? Eu sou americana. Essa é uma das minhas identidades aqui em Salvador (talvez a mais importante) porque ao dizer isso, vêm certos "privilégios" e outros preconceitos. Falo com sotaque norte-americano. Caminho do jeito norte-americano. Muitas pessoas me acertam e me chamam americana na rua. Mas, tem vezes que acham que sou argentina ou francesa ou as vezes alemã ou italiana. As vezes não corrigo eles, as vezes sim. Que aspecto do meu visual dá a impressão de que sou de um dos países que não é o meu? Acho que o meu estilo do cabelo tem provocado muitas dessas decisões de classificação, com um fator em comum: meu estatus como estrangeira.

A minha identidade flutua no espaço. É algo imposto em mim por outras pessoas. Até chega mais além do que só o preconceito baseada no cabelo rasta. Por roupas que uso e a biologia que elas escondem, faz que as pessoas pensem saber que o meu gênero é feminina, que sou mulher. Só que não raspo o cabelo das pernas (e essa é uma qualidade de homem). Então, pode ser que seja lésbica. As pessoas ficam pensando....será? É interessante que posso mudar a opinião e manipular o censo das pessoas de acordo com o visual que apresento. Que sou? Todo mundo julga as pessoas pela primeira impressão que lhes dão. Me dizem então, quem sou hoje?

Imagino que essa é a minha resposta da pergunta por que deixei o meu cabelo rasta. Já a respondi. Mas só com dizer que gosto da conversa que provoca nas pessoas dá justiça à complexidade da resposta elaborada com toda essa explicação? Não posso fazer esse discurso todo em uma rotina, nem quero fazer isso. Porque entre a poeira acumulada e sal do mar, enrolado no meu cabelo ficaram milhares de impressões, e comentários para sobrar. Ela vem com explicações e preconceitos, provoca conversa e estranhamento. O meu cabelo é inspirado e grotesco, é seco e molhado, feito e deixado. É tudo e é nada. O meu cabelo é o meu cabelo e não preciso um por quê. O meu cabelo é político porquê.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O meu mapa afetivo de Salvador

Queria falar de Salvador através das minhas excursões em ônibus ( que são uma maravilha ) porque eu, por a minha condição de estrangeira, tenho de ir habitualmente para alguns lugares como à Receita Federal, que agora fica no aeroporto, e como o Consulado da Itália, em Aflitos, perto do Campo Grande.
Para ir à Receita Federal pego o ônibus "Aeroporto" que vai até Itapuã, passando pela Orla, que eu adoro, porque adoro o mar.
Na Itália eu moro numa ilha e perto da minha cidade tem oito quilómetros de praias, mas elas não pertecem à cidade, porém ficam ao lado.
Aqui é diferente, porque antes havia a natureza: o mar cheio de peixes, a mata atlántica, os animais da floresta.
Agora não sobra nada daquele mundo, só os nomes: Pituba ( o grande camarão ) Jaguaribe ( água dos jaguares ), lembranças de lugares salvagens, povoados pelos índios e pelos animais. Agora eu olho os aranhaceus de Pituba e as casas residenciais de Jaguaribe e penso que, embora ficando con medo, preferiria ver os jaguares.
O único bairro do qual eu gosto de verdade é o Rio Vermelho, muito interessante, porque se podem observar claramente os dois níveis da história da comunidade: a parte burgueza com os casarões decorados de ornamentos frorais, os jardins particulares e todo um aspecto que remonta ao início do século xx; e a parte popular, com as barcas e as rêdes dos pescadores.
Em cima de tudo, vigia a estatua de Yemanjá em forma de sereia, como para lembrar a todos que o povo do Rio Vermelho pertence ao mar.
Um caminho bem diferente que tenho de fazer várias vezes para ir à Casa da Itália é a rua 7 de Setembro, até Barris.
Pego o ônibus "Praça da Sé/Vitoria" que passa pela Oceânica e pela Ladeira da Barra.
O panorama da Oceânica, entre o Morro de Cristo (com seus coqueiros) e o Farol da Barra, é maravilhoso.
De manhã o de tarde sempre está cheio de gente: as praias de meninos brincando com as ondas ou treinando surf, a rua de pessoas que correm para emagrecer e ficar numa boa forma física.
A calçada entre o Farol e o Porto sempre está ocupadas pelos vendedores de objetos artesanais de todo tipo (joyas, instrumentos musicais, plumas de papagayo), camisas e vestidos, comida e bebida.
Depois o ônibus sobe pela Ladeira da Barra, passando em frente do Forte de S. António e do Yatch Club, e se pode curtir uma vista estupenda: o mar, a ilha de Itaparica, os barcos pintados de branco balançando sobre a superficie do mar.
Ao final da ladeira o ônibus entra no Corredor da Vitória, a minha rua preferida porque tem uma manga gigante, uma árvore única em Salvador: cresceu tanto que entrou no muro!
No Corredor da Vitória também ficam antigas vilas agora convertidas em museos ou em residências estudiantis, muitos prédios antigos e lindos, mas, sobretudo, árvores antigas e lindas.
Só tem uma coisa da qual eu não gosto muito: uma aparência rica e aristocrática que eu acho bastante antipatica.
Porém o final da viagem, pra mim, é muito mais alegre e simpático: a rua da Piedade com suas lojas baratas onde se pode encontrar tudo e os assistentes de venta que procuram convencerte de que você precisa de tudo.
Eu acho que descer do ônibus, entrar nas lojas, dar uma olhadina, falar com a gente que vende
é como fazer uma segunda viagem, tal vez mais interessante que a verdadeira.
Mas o meu relato não seria completo sem falar dos vendedores ambulantes nos ônibus.
Eu acho que pude perceber o significado autêntico do trabalho pesado vindo como eles agem e escutando as suas histórias.
Eles são incansaveis: sobem e descem sem parar um momento, sempre carregando a mercadoria que muitas vezes parece ser pesada.
Falam muito, entram em contacto com os passageiros, contam histórias pessoais, promocionando os seus produtos como se fossem produtos de grandes firmas, porém na verdade é mercadoria pobre.
É preciso ter muita criadividade e muita coragem para passar assím o dia todo e eu os admiro muito por isso.
As minhas excursões por Salvador terminan aqui.
Esperemos ter outra oportunidade para falar mais, tal vez sobre diferentes lugares de Salvador que ainda eu não conheço bem e que espero conhecer no futuro
Um beijo
Paola

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Turistas em Salvador

Na passada semana aconteceu algo pra mim insólito: ver o comportamento de um turista em Salvador. Eu moro aqui há dois annos e acho que o meu olhar está compenetrado de baianidade, mas tive a oportunidade de experimentar o olhar turístico e eurocéntrico através o comportamento de uma amiga que veio a visitar-me e que acompanhei nas voltas que ela deu pela cidade.
Como primeira coisa eu pude perceber que todos os turistas são iguais, procurando os mesmos lugares e as mesmas experiências: as Praias, Pelourinho, as caipirinhas na Cantina da Lua e a capoeira da escola do Mestre Bimba e só gostam das excursões organizadas.
Por exemplo: têm muitos ônibus fazendo o trecho Salvador-Itapuã, com um custo de dois reais, mas o verdadeiro turista prefere pegar o ônibus turístico e pagar muito, muito mais.
Sempre ele fica encantado: "Que lindas praias! Que sol! Que paisagem!"
Não percebe que os ônibus urbanos viajam ao lado do seu e que a paisagem seria a mesma?
O verdadeiro turista não gosta de visitar muitas igrejas ou museos no Pelourinho, porque acha que são todos iguais, mas gosta muito de entrar e ficar horas nas lojas de souvenir que, todo mundo sabe, têm a única função de roubar, oferecendo a mesma mercadoria que oferecem os vendedores de rua ao dobro ou ao triplo do preço.
Mas os turistas gostam de ser roubados pelos lojistas e não pelos vendedores de rua: com os primeiros compram sem discutir, porém com os segundos se comprometem em debates que ném a cumbre mundial de G20
E pra que? Pra não gastar um punho de reais que quase não têm valor em euros.
A verdade é que não querem nem perceber a existência de problemas.
Quando a pobreza, representada pelos meninos do Pelô e pelos vendedores de colares, se aproxima a eles, reagem como quem dissesse:
"Por que você não segue sendo invisível? Não sabe você que os meus olhos só querem ver coisas bonitas?"
Não sei, espero não ser muito pessimista mas è mesmo a impressão que eu recebo muitas e muitas vezes.
Um saludo de esperança pra que as coisas e as pessoas melhorem
Paola

sábado, 15 de novembro de 2008

A cultura transplantada e a resposta à loucura pro Obama

O sábado antipassado fui ao jazz no MAM. Se não chover, é um evento que ocurre o ano enteiro no Museu de Arte Moderna (MAM) aqui em Salvador. Uma banda local toca música após do pôr o sol (18:30) até aproximadamente as 21 horas. Acho que posso dizer que é um dos meus lugares favoritos aqui; me lembra muito o verão em Madison com a música de sexta-feira acompanhado com o ambiente e o som das ondas chocando com as rochas e os barcos lá na frente, a cerveja gelada, a fofoca voando livremente na brisa. Tudo tranqüilo, tudo lindo, tudo erudito. Quanto mais desce o sol, mais as luzes artificiais das casas distantes aparecem como refleição dos imagens delas, como estrelas do céu caidas na terra. A vista realmente é lindo; é um lugar encantador. Mesmo não sendo muito fã da música jazz, adoro ir ao jazz no MAM. É o conjunto da música, a vista, o mar, e as pessoas que criam o espectáculo.

O sábado quando que fui ao jazz, mesmo o cenário sendo familiar, o jeito das pessoas ainda não era. Conheci um rapaz de trinta e tantos anos aquele noite e quando ele soube que eu era dos EUA començou falar em voz alta, quase gritando, que seu inglês não era muito bem e que morou um tempo no meu país, no Alabama. Logo ele começou a me explicar o racismo que ele experimentou lá. Só que o racismo que ele experimentou era porque o consideravam branco. Na sua visão, os EUA são um país racista porque apesar de ele ser baiano, lá era branco. Me falou que morando lá, ele ensinou em um colegio dominado pela presença negra mas se estranhou por o sotaque e o uso da giria muito forte dos negros, coisa que ele jamais conseguiu entender nem menos encontrar jeito de expressar. Me falou muitas coisas sobre o meu país que, na verdade, eu nunca tinha experimentado. Explicou que o povo lá era racista com ele porque ele era branco e aqueles negros não gostavam dos brancos. Que era um país segregado e quando ele tentou se integrar eles recusavam. Então, falou para eles apontando para seu braço meio moreno dizendo “Não! Não! Sou Baiano! Sou negro, gosto dos negros, sou um de vocês”. Ainda assim, eles se comportavam de um jeito racista segundo ele, excluindo ele por ser branco. Aqui é negro, lá é branco e quem sabe o que aconteceria na Europa ou na Ásia ou na África. Então raça é uma questão da preferência e definição pessoal? Não pode ser tão livre porque tem limites sociais que permitem certas pessoas se classificarem como negro e outras não. Então, onde fica essa linha? O que é necessário para se classificar como uma raça ou outra? Claro, o aspeto teórico não elimina o preconceito nem os exemplos concretos e reais de discriminação baseada nas definições da raça aceitadas socialmente.

Os EUA são um país racista. A história e inumeráveis exemplos modernos podem comprovar isso. Mesmo assim o tempo todo aqui em Salvador ouço palabvras e discursos tão racistas que não sei da onde vem esse concepto de que o Brasil não tem preconceito. Ainda não tive a oportunidade de viajar muito pelo país, porém, depende do ambiente mas mesmo aqui as pessoas me confirmam que o Brasil é um paraíso racial e que só existe a livre mistura de raça e isso concorda com a imagem exportado do Brasil também. Aqui na Bahia talvez as coisas são um pouco diferentes e a questão racial chegou alcançar a um nível acadêmico tanto que em Salvador tem uma parte da UFBA dedicada somente aos estudos disso (CEAO, centro de estudos afro-orientais), coisa que pelo momento acho absolutamente necessário para visibilizar o tema.
Com o olhar sempre voltado para fora (os EUA e Europa e as vezes só o sul do país), as pessoas daqui ficam falando, discutindo, até apaixonando de um discurso e por uma esperanza que talvez não lhes é própia de uma forma direita pelo menos. Fui para o Rio de Janeiro faz duas semanas e teve um rapaz lá que fez uma escultura na areia deletrando Barack Obama e saiu em cinco jornais o próximo dia. Quando fui ao Pelourinho o dia da eleição, entre todas as pinturas coloridas típicas da Bahia, vi um retrato de Obama. No Porto da Barra, vi um rapaz com uma camisa rosa com a foto de Obama em frente e o arcoiris atras. Por cada lado que viro a minha cabeça têm arte e manifestação por o apoio a Obama. Todo isso antes das eleições para empurrar essa energia boa na atmosfera e fazer que ele ganhasse (agora ganhou, suponho que funcionou).
Nos dias posteriores das eleições presidenciais dos EUA, os jornais baianos estavam lotados de artigos, comentários, e demias sobre o novo presidente-eleito Barack Obama. Em particular, gostei de um que saiu no jornal A Tarde, entitulado assim: “Barack Obama – o sonho da Bahia” por João Jorge Rodrigues (http://www.atarde.com.br/jornalatarde/opiniao/noticia.jsf?id=1003813). Nesse artigo não muito cumprido, um jornalista baiano comentou sobre a reação e esperança do povo brasileiro enquanto às noticias dos EUA terem eleito um presidente negro como o novo poder. Abriu o artigo dizendo: “A eleição americano foi capaz de revelar um fenômeno social modderno” e seguiu desse jeito até usar uma palavra que acho muito adequado aqui Obamania. Realmente as pessoas ficaram loucas por saber que os americanos eram capaceis de escolher um homem negro como presidente e até ficaram sorprendidas quando vieram a reação positiva e emotiva de muitas pessoas brancas, asiaticas, latinas retratados na tevê chorando com emoção por saber que Obama ia lhes representar pelo menos por os próximos quatro anos. Diz o artigo que com a eleição de Obama “nos inspira a lutar mais para realizar o sonho dos meninos e meninas negros esquecidos na periferia da cidade-mãe do Brasil”. Tudo transplantado, tudo olhar da fora analizando o Brasil, dizendo o que deve fazer e que deve arreglar, fazendo modelo para o país seguir, até o racismo nesse país. Na minha aula de Historia Cultura Brasileira, falamos o semestre enteiro da cultura transplantada da Europa antigamente e agora mais com os EUA e como as vezes (muitas vezes) não deu (da) certo aqui mesmo por serem transplantados numa sociedade que não sofreu a mesma historia da Europa. Antes nesse blog, analacei a cultura brasiliera de acordo com o olhar queer que aprendi nos EUA. Agora gostaria de escutar uma teoria de raça que vem daqui. Quero ouvir e ler textos produzidos pelas pessoas que são daqui para não seguir a vissão transplantada que tanto foi exposto o Brasil.
Por mais que gosto que as pessoas fiquem felizes por causa dos resultados electoriais do meu país (o que me faz sentir orgulhosa de pertencer à comunidade que fez possivel essa mudança) ainda é muito presente a idéia de transplantação da cultura. Quando vou ao jazz no MAM, me sinto transportada, transplantada ao mundo da fora, a minha casa. Mas o momento que eu pisar na rua lá acima, tiro o meu spray pimenta da minha bolsa e caminho a casa, olhando sempre atras de mim. O que quer dizer isso? Estou já cansada do meu discurso. Quero que uma pessoa baiana me diz.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um dia na praia...

Passando o fim de semana no Morro de São Paulo, eu me dei conta da economia turística lá e me lembrei que eu queria fazer alguns comentários sobre a economia da praia aqui em Salvador. Como eu sou de uma cidade (Filadélfia) que não tem praia, eu só conheço a praia americana de longe. Embora tivesse ido a praia em Nova Jersey não mais que cinco vezes na minha vida, eu sei que o espaço comercial lá e o Boardwalk, a calçada feita de madeira ao lado da areia, onde tem hotéis, restaurantes, lojas que vendem lembranças, a parque de diversão, e minha lugar preferida, a fliperama. Quando eu cheguei aqui em Salvador, eu fiquei fascinada com a diferença entre o comércio da praia brasileira e o das praias que eu conheci nos EUA.

Primeiro, sem o Boardwalk como espaço comercial, os vendedores levam todos os seus produtos nas costas pela areia e andam de um lado ao outro, tentando vender suas mercadorias. Eles geralmente reconhecem os gringos de longe e muitos sabem falar pelo menos o nome do seu produto em inglês. Quase todos os vendedores são simpáticos (quem quer perder clientes?) mas alguns também são tão agressivos até que você pode se convencer que está precisando de alguma coisa que nem poderia usar na praia.

Eles têm de tudo! Têm pulseiras tecidas, biquínis de coco, chapéus de folha de palmeira, brincos, colares de contas de vários tamanhos e cores, DVDs e CDs pirateados, redes de descanso, vestidos e muito mais. Têm coisas que você pode precisar na praia como protetor solar, bronzeador, creme para oxigenação do cabelo, óculos de sol, e cangas. Têm também coisas que eu nem podia imaginar encontrar na praia como tatuagens de henna, consultação de tarô, livros de segunda mão, quadros pintados, e manicures. As únicas coisas que você não pode vender na praia são a areia e o mar.

Pode ser velho ou ainda criança, tem vendedores de todo tipo, inclusive eu! Inspirada pela manicurista eu já fiz meu próprio trabalho lá, enrolando o cabelo rasta de um amigo meu, depois do qual eu ganhei o interesse de mais três clientes. Eu nunca imaginei abrir um salão de beleza, contudo na praia, até eu cheguei aqui.

Mas os vendedores de roupa e os artesanatos não são os únicos trabalhadores da praia, também tem os caras que aluguem cadeiras e sombreiros enquanto vendendo bebidas. Embora a prática de alugar cadeiras seja ilegal, como eu li nesse artigo, é muito comum, particularmente no Porto da Barra. Tem vários grupos (devem ser chamados empresas pequenas) competindo alugar espaço na areia e cada um tem seus clientes fiéis, que ficam na mesma parte da praia cada vez que visitam.

Além de tudo, os vendedores dos quais eu gosto mais são os que vendem merendas. Embora eu goste de merendar, eu prefiro eles mais por causa do seu jeito de chamar a atenção dos consumidores. Cada um tem um anúncio reconhecível. Por exemplo, o velho que vende picolé tem um assobio que você pode ouvir de longe. O cara que vende limonada sempre fala, “O limão chegou! Limonada!” Finalmente, ninguém pode esquecer dos vários gritos de "Queijo!!" ou da música dos vendedores de Camarão do João com sua repetição de camarão e João em várias frases. Não dá muito para relaxar na praia assim com tantas vendas, mas para mim, não é um problema porque eu gosto mais de socializar e observar as pessoas e suas interações.

Foi pelas minhas observações que eu descobri que ainda tinha outras pessoas trabalhando na praia sem parecer trabalhar. Tem guias turísticas fazendo amizades com gringos, oferecendo levá-los aos lugares bons da cidade. Tem prostitutas. Tem “caçadores” que vivem namorando gringas. Tem alguns capoeiristas que treinam e dão aula na praia e outros que dão saltos espectaculares para chamar a atenção dos gringos que podem levá-los fora do país para fazer apresentações. Tem pessoas que trabalham só pela conversa. Tem pessoas fazendo propaganda para boates e restaurantes, que convidam os turistas às festas. Tem outras que falam de apartamentos vazios ou que recomendam pousadas boas. Todo isso é trabalho que acontece na praia.

E no final do dia, depois de aplaudir o sol, você pode ver os pescadores. Pode ver pessoas que recolhem latas e garrafas, outras que colocam o lixo nas lixeiras, e outras que esvaziam as lixeiras. Tem varredores que tiram a areia da calçada à noite e outros que lavam as escadas de manha cedo. E daí tudo se repete de novo.